terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Nada que me preocupasse além do justo

Eu estava lá para resgatá-la. Confirmara o depósito logo nas primeiras horas da manhã, quando do despertar da agência bancária. O caminho estava brutalmente obstruído. Dali de onde eu via o campo de ação, tudo acontecia em um desenrolar estúpido, como se o Glenn Miller aparecesse levando a guitarra-base dos Arctic Monkeys numa versão pós-moderninha de "In the mood". Isso é só um exemplo, cuidado. Entenda o meu lado também, não é estranho ver leões-de-chácara andando somente em diagonal? Brutamontes de quase três metros se esgueirando por aquele jardim nababesco ora pra frente/trás, ora pros lados, nunca descrevendo diagonais. O Barão já havia providenciado o rock. Eu captava bem. Torneios de boxe entre o Hank, Hem, Malloy, LaMotta e o Norman Mailer só dando pitacos, pra comprovar sua macheza, mesmo sem desferir um soco sequer em algum dos seus convivas. O Kerouac reaça e o Ti-Jean iluminado e vagabundo discutiam telepaticamente debaixo dos uivos do Ginsberg e das baratas do Bill Burroughs. Samsa era uma dessas baratas, mas é segredo. Mr. Deeds planejava me emprestar uma grana, ao passo que eu o admitiria para que se juntasse ao conjunto musical contido em "Confissões de uma estrela do Rock N' Roll". Marcelo Camelo era o ourives das melodias e realmente, bebia muito pouca água. Zé Rubem divertia-se trando fotos de si mesmo com um telefone celular, além de marcar o compasso de "Party in the USA" com o pé direito.
Amanheceu uma entusiasmada Telecaster dourada de espelho branco, e todos paravam para escutar "Onde tudo parou" com reverência nada nada nada fingida, coisa sincera, bonita mesmo.


Eu tinha tudo que precisava ali mesmo. Fora resgatá-la e voltei para casa sob suas asas. Assim é a vida. E assim ela não é também, em alguns dias.

Nada que me preocupasse além do justo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Fila de banco

Fila do banco. Sem senhas para atendimento. Segurança plantado feito coqueiro de praia examinando os assaltantes em potencial na fila. Mal sabe ele da Uzi novinha, em fibra de carbono, desmontável, que trago na mochila. Mentira, trago nada. Fica sempre em casa. Minha vez.

- Boa tarde. Tudo bom?
- Tudo. Pois não?
- Meu salário. Não consigo pegá-lo.
- Mas por quê? Se o seu cartão magnético estiver ruim, o senhor deve se dirigir à sua agência para solicitar outro.
- Eu não sei dirigir. Eu não tenho agência. Quero o meu salário, só isso.
- Senhor, estou lhe explicando (impaciente) que se o problema for (enfática) no seu cartão magnético (abrandou), o senhor deve ir à agência onde abriu a conta.
- Bom, é melhor que você tente, estou me sentindo diante daquelas máquinas que têm uma garra metálica de pegar bichos de pelúcia, sabe? Tenta você pegar pra mim. O salário. Olha o cartão aqui, ó. - estendi-lhe o cartão.

Pausa pra ela verificar minha conta, minha foto, meu orkut, meu twitter, o que ela quiser. Tenho um blog também, moça. Ah, isso ela não ouviu. Droga.

- Senhor, seu saldo no momento é de quinze centavos (riso contido, muito mal contido).
- Viu só? Nada de salário.
- Senhor, verifique com o departamento pessoal de sua empresa.
- Não tem empresa. Nem departamento. Só eu.
- Próximo!

Sob protestos violentos de toda a fila atrás de mim, eu retomava. Mas agora fui com tudo, procurei uma única frase que expurgasse tudo de Randle McMurphy, Stan Kowalski, Jack Gites, Jack Torrance e até algum pouquíssimo Terry Malloy que havia em minha alma.

- PRETENDO SAIR DAQUI COM O MEU SALÁRIO, ENTENDEU, MOCINHA?

Ela pareceu ter sentido a frase para muito além daquelas palavras. Tirou o óculos, me encarou firme e gritou “tô saindo pro almoço” sem tirar os olhos de mim e pulou o balcão do guichê três. Me puxou pelo antebraço e me levou até a porta giratória, por onde passou primeiro e me esperou passar, atentamente. Lá fora, sinalizou com a cabeça para que eu entrasse em um Fiat Uno 1998 vinho, duas portas, IPVA atrasado, revisão ok e estofado encardido. Assim que pus o cinto, ela deu a partida.
E fomos embora. Sigo sem saber pra onde ela me leva. Tudo vai sumindo no retrovisor: trevo, estrada, rua, alameda, ponte, estrada de novo, céu, ilha, prédio, ladrões, bicicletas. Eu estava com trezentas e setenta e oito pratas em moedas guardadas na minha mochila, e a vida mal começara a rodar de verdade. A gente estava na Dutra quando tocou “I get around” no rádio. Em seguida, Santo & Johnny, fantástico. Nunca antes havia sido tão bom viver.

domingo, 29 de novembro de 2009

Tocando Tuba

"E àquele que
possuir o coração
puro
e vier ter
com o túmulo
do General Ulysses Grant
por gratidão e altruísmo,
eu delego
Justiça luminosa
ante às trevas das iniquidades,
Mr. Deeds"

Caricatura

Eu estava lá para ver o Nilcom, novamente. Pela terceira vez, se me falhar a conta alguém vai me avisar, eu acho. Muita gente ia ver o Nilcom, motivo pelo qual eu ainda ia esperar mais algumas quatro ou cinco revistas sobre gente famosa, todas com pelo menos um ano de delay em relação aos últimos acontecimentos. Quanto casamentos cabem em trezentos e poucos dias? Se você for o Márvio Júnior, uns três pelo menos. A secretária do Nilcom era bacana. Olhava torto pra todo mundo, mas era próprio da feição dela isso aí de olhar torto. Há quem ache charmoso, eu não acho absolutamente nada. Reconferi mentalmente se havia levado tudo que era preciso para a audiência com o Nilcom: dois contos, uma poesia, uma caricatura maledicente e um pedaço de queijo curado.
Um parênteses sobre caricatura.Na oitava série, chegou na turma um garoto vindo de São Paulo. Para se inserir entre os demais, era preciso ser completamente obcecado por futebol, saber as escalações médias dos times da primeira divisão do nacional e, principalmente, demonstrar desenvoltura nas peladas, isso sim diria qual era sua posição na hierarquia daquele bando. O paulista era corinthiano e demostrava bons conhecimentos sobre o jogo. Eu sabia muitas escalações, mas desperdiçara muitas chances de ascender socialmente na turma, ou seja, era um pereba. Em suma, depois da caricatura do professor Kropf, todo mundo me requisitava um desenho maledicente. E eu resolvi atender quando me encomendaram um do paulista. Fiz umas orelhas ignorantemente exageradas e concluí com a pinta que ele tinha no nariz. Parecia um rastilho de pólvora. Uma gargalhada puxando a outra, foi amontoando gente. Senti uma pontada na tripa quando o próprio retratado foi tomar parte na aglomeração. "Que é isso aê, meu?". Ele pegou o papel e lá estava, um paulista olhando pro outro, não sei dizer qual dos dois ficou mais puto. O paulista real ficou mais vermelho, isso é verdade. Não faltou quem apontasse o autor do cartum, vários dedos em riste, dizendo "foi ele ali, ó" pra mim.
O paulista me encarou, forçando bastante o lábio superior pra cima, como se com o queixo esticado ele dissesse "vou arrebentar sua cara, que aí você fica sem desenhar as orelhas dos outros desse tamanho por um bom tempo". Comecei a calcular, instantaneamente, a eminência de um confronto pós-aula. Ele era bem franzino, mas tão alto quanto eu, e tínhamos as mesmas proporções fisicamente. Mas a motivação dele pra me arrebentar era maior que a minha para dar uns socos nele. Muito maior. Maior que as orelhas dele, inclusive.
"E aí, paulista?", "Vai deixar barato?", "Quebra ele!". Era muito apropriado que ele ficasse com vontade de bater em alguém com tanta gente estimulando seus instintos vis. Era muito apropriado também que eu não apanhasse do novato, já que não era tecnicamente um craque da bola e seria parte da ralé da ralé dos perebas se perdesse uma briga. Mas o paulista me deu uma rasteira da qual eu sequer conseguiria prever ou me defender. Ele encarou o papel novamente, expressão cerrada ainda e, num pedaço pequeno de instante, serenou-se e me encarou como se eu fosse tão corintiano e paulista como ele e me disse: "Eu perdôo ele. Ficou parecido".
Seria melhor se tivesse me dado um soco na cara, assim eu poderia me defender à altura. Quis mastigar o desenho. Diminuí tanto que não conseguiria escalar o rodapé da sala sem uma corda.
Quando me libertei dessa digressão, desse pensamento parênteses, o próprio Nilcom se dirigia à mim, dizendo com sua austera calma: "pode ir se mandando, terminamos por hoje". Antes que eu pensasse em protestar, já estava no elevador. Quando a porta se abriu uns 3 andares abaixo, adivinha quem entrou, inexorável, na cabine?
Ninguém. O corredor estava vazio.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Dois solitários entre milhões dos seus

- Oi. Você não estava na mesma leva que eu?
- Oi. Eu tava sim, umas duas filas antes da sua.
- Já estamos quase expirando. Algo em mente?
- Não há muito que possamos fazer nessas horas. Só esperar.

E era inflexivelmente dessa maneira. Mal tinham tempo de estabelecer uma medida que fosse de prosa e já se fazia lembrar a hora em que fatalmente sucumbiriam. E nem mesmo a raridade daquele instante tão singular emprestava dramaticidade ou melancolia à cena. Simplesmente era assim que haveria de ser, sem mais. Ainda tiveram tempo de mencionar:

- Sabe, eu pensei que realmente era o momento da Grande Jornada.
- Todos pensam que é, amigão, não fique desapontado.
- Você sabe, a certeza de ser O Escolhido é algo maravilhoso, não acha?
- Sou mais cético que você, meu chapa. Corro por fora, sempre. E deixo que os azarões otimistas demais se estrepem pelo caminho.
- É um esquema onde não há nem como guardar experiência. Sem chance além, vence o melhor, predestinado, O Escolhido, como quiser chamar. Quando partimos, só um lugar importa.
- Se ainda houvesse um jeito, um só que fosse, de saber quando não vai dar em nada, milhões poderiam se salvar. Pense nisso, milhões, cara.
- Mas não é assim que funciona, quando chegamos aqui tudo já era exatamente como é.
- Verdade. Estou sentindo muito sono. Onde estamos?
- Provavelmente em algum encanamento. Dorme, cara, é melhor assim. Também estou indo nessa.

Fechou o registro e enxugou-se. Podia ir dormir tranquilo agora.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ao Zé R.

Mario Cherubino na Antero de Quental olhando para as janelas dos prédios debruçados todos em volta da praça. Olhou para as árvores todas, muitas vezes, em especial aquela que recebera cuidados especiais do José. Não era um dendrólatra como ele, mas lhe agradava a presença das árvores ao redor. Plateia muda que só chiava quando o vento corria. E o que ele acharia? Evocaria mentalmente o Schiller, na certa.

Mario sentado ali na praça, em meio à tantos oceanos, deslizando tectonicamente o pensamento por tantas ruas do centro do Rio de Janeiro que andou conforme citado por José, em seus contos.
Cada linha escrita pelo Zé R. fora devorada dentro daqueles dez minutos em meio à escuridão daqueles mapas que não o levavam para lugar algum, inúmeros logradouros de Ubá, Montes Claros, e outras cidades mineiras cujas praças, residências, igrejas e vielas ele percorria do alto, inserindo dados, acompanhando curvas, quadras, distante das lágrimas no portão, das risadas no boteco com mesa de sinuca de tecido rasgado, do aroma do alho dourando; tudo isso acontecia em uma dimensão alheia à todos aqueles traços impessoais que ele desenhava sem nunca deixar de sentir a si mesmo como um impostor.
Foi para lá como Roque também fora um dia, não para balear seu rival nas pernas por causa de uma mulher, mas para confrontá-lo, diretamente, ele, o Cobrador. Foi quando o interpelou.

- Zé?
- Hum? - virando-se bruscamente
- Sou o Cherubino. Mario Cherubino, lembre bem. Precisava encontrar o senhor pra lhe entregar isto aqui – estendendo-lhe um envelope pardo.
- Você é um Hamsun pedindo orientação para seus escritos? Me desculpe, mas já imagino que o que tem aí dentro são excrementos, não prestam para nada. Se fossem realmente bons, não precisariam da minha opinião. Até mais ver – e já ia firme no sentido oposto, abreviando a conversa.

Mario permaneceu ali. Olhando fixamente pra lugar nenhum. Logo em seguida, depositou o envelope ao pé da jovem árvore adotada pelo Zé e sumiu dali. O metrô manobrou para partir. Não havia nada escrito naquelas páginas. Absolutamente brancas. Mas agora o vegetal adolescente estava apavorado com aquela amostra tão próxima de seu futuro mais pardo: tornar-se um sulfite branquinho esquartejado em folhas tamanho A4. Seu horror seria tanto, que logo o José interviria para confortar-lhe. E lembraria do envelope que recusara. E acharia meu nome em sua memória. Em questão de segundos se aproximaria do meu blogue. E seria feito prisioneiro injustamente em um conto absurdo, dançando e cantando à contragosto no realejo de palavras dissonantes de Mario Cherubino, estando inclusive à mercê do teto incerto de batalhar por um papel num conto, talvez no revés de acordar ali no Armazém Nove.

Foi mal, Will, releva

Era um dia igual à ontem. Digo isso porque ontem foi igual à anteontem, e assim continuou regressivamente até chegar no dia em que comecei essa rotina massacrante de ir e voltar. Pensei em voltar tantas vezes. Em ir ali e não voltar mais outras muitas vezes. Nem os vinte e seis andares em queda espiral com uma cadeira que deveria estar em outro lugar. Nem a nota que ficou no balcão.

Havia uma caixa com cinco discos de vinil do Nelson Gonçalves. Eu deveria ajudar o office-boy a conseguir algum dinheiro naquilo, afinal, era eu quem circulava por entre aquelas lojas de discos velhos, obsoletos, mal-vestidos, aqueles biscoitos de piche que gritavam sons doídos quando arranhados no lugar certo.

Não ofereciam mais que cinco pratas. Uma ofensa pra ele, que esperava descolar uma bela e dengosa onça marrom naquele material fonográfico nada extinto. Fomos em duas lojas na Sete de Setembro e em outra na Senhor dos Passos. Todas possuíam ao menos três coletâneas como essa que levamos. Já na Luís de Camões, cada disco pesava uns dez quilos.

Ele me contou que seu padrasto tinha deixado os discos pra trás quando saiu de casa. Meu pai tinha essa coletânea. Todos tinham. Grana certa vendê-la. Raridade. Peso morto. Elefante preto sulcado. Cinco, na verdade.

Tomei-os dele e o convenci que eram perda de tempo. Entreguei o estojo com os elepês ao primeiro bebum que vi na escadaria do IFCS. O bebum achou ser realmente um grande presente, mesmo não aparentando ter uma vitrola que coçasse os sulcos que ressoariam barítonos sobre a vida que era um palco iluminado.

Voltamos gargalhando daquela hora de almoço perdida com uns discos que não valiam nada.

Mas o tempo cuida de mudar valores, rumos, costumes, papéis, pessoas.

Pois é. Aquela coletânea atualmente está avaliada em cerca de duzentas e cinquenta pratas.

Will, acho que o bebum não mora mais lá. Mas espero que você o encontre um dia desses.


E espero mais ainda que você nunca chegue nem perto de ler isso aqui.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Anita Ekberg da Batalha

Lá estava ela,
no Largo
Diante de um Império.
Só eu
sabia
que ela se banhava.

14 de Outubro





Dias esquisitos. Ônibus esquisitos. Vinte pratas. Precisava receber o troco antes que o próximo sujeito na roleta passasse por mim, porque só haviam dois lugares no ônibus: um no corredor e outro naqueles bancos de trás, que seriam meu plano “b”. Pois não faltou agilidade e presteza ao cara da camisa azul-clara, ele me deu o troco no tempo certo, mas errou o cálculo do alvo. As notas estavam na minha mão, as moedas, espalhadas no chão. “Desculpa aí, cara, me desculpe mesmo”, me disse ele. Não havia o que desculpar, uma besteira à toa. Abaixando pra pegar as moedas, dei passagem para que pegassem o lugar no corredor; ao me erguer novamente, era já ocupado o lugar nos bancos atrás do trocador. Um moleque de uns onze anos sentado no começo do corredor olhou pra minha cara e pareceu dizer que eu era um babaca diplomado por causa do evento das moedas. Óbvio que aquilo era uma forma estúpida que eu dizia pra mim mesmo o quanto eu estava me sentindo idiota. Por isso tratei de providenciar a trilha sonora, segundo dia da programação de ontem, que continha Giant Sand, Ryan Adams, Grizzly Bear, Camera Obscura, Of Montreal, Sufjan Stevens e algumas músicas do “I'm not there”.
Nenhuma música aderia. Até mesmo “X-tra Wide”, do Giant Sand, que funcionara maravilhosamente na primeira audição, hoje soava apenas um amontoado de acordes, notas graves passando sem alarde algum, como o metrô faz todo dia da Uruguaiana até a Carioca. Passei direto pelo Ryan Adams e pelo Grizzly Bear também. Camera Obscura emplacou uma: “Away with murder”. As que tiveram algum sentido foram “As I went out one morning” e “The lonesome death of Hattie Carroll”. Emborquei num sono desconfortável, de ônibus cheio e interrupções de paradas intermitentes, luzes mal-criadas, essas coisas das cinco horas. A orquestra tocava as peças do Sufjan e o sono mostrava o poço e todos os pensamentos convergindo para seu desconhecido fundo. Vez ou outra vazavam pela janela uns fragmentos do bronze que escapava do sol. Contornos épicos a cena ganhava. Me doeu ver o surdo-mudo entrar, distribuir seus pequenos papéis e voltar recolhendo um por um, sem qualquer moeda ou nota junto. Eu ouvia “Crying Lightining” então, uma irritação tácita e sub-reptícia estava dando as cartas. Disparidades. Pertencimento. Rumo. Escolhas. Parecia deslocado na festa. Na casa errada. Na hora errada. Porta errada. Eu errado. Onde é que eu fui me esquecer?

sábado, 3 de outubro de 2009

Futebol no Sonho

Começou assim: eu estava atrasado. Isso acontece um bocado por aqui. Eu precisava ir defender o time de futebol da faculdade. Não lembro qual era o nome da instituição nem o curso que fazia, mas eu estava feliz ao ponto de não esquentar com isso. Aliás, com nada mais além do jogo. Era uma tarde bacana, cheia de sombras de prédios, como a gente vê nos pátios dos prédios em Laranjeiras, Flamengo, Botafogo; aquele vento bacana que circula onde o sol quase não bate, cheiro limpo de saguão de prédio, matiz de madeira e algum outro cheiro bom artificial que se compra no supermercado. Mas eu estava atrasado. E fico aqui descrevendo o prédio onde eu morava (sim, nos sonhos a gente sabe que MORA lá, simplesmente sabe e pronto, uma pequena certeza prévia e absoluta), deixa isso pra lá, você já sabe que eu morava num lugar dos bons.
Cheguei no local do jogo e os caras estavam todos lá, nunca tinha visto aqueles pilantras, mas sabia que eram meus melhores amigos há alguns bons anos. Eles falaram pra eu me aprontar logo, logo começaria o jogo. Então segui pro vestiário e coloquei o uniforme, uma blusa branca com gola vermelha em “vê”, como a maioria das camisas de futebol dos anos milnovecentosesetenta, por aí, com um calção vermelho, o meião branco, a chuteira azul (sim, aqui temos um elo com a realidade) e eu, ali, um atleta.
A direção e a montagem do sonho são bem esquisitas. Cortaram a maioria das cenas do jogo, restando apenas o momento crucial de uma penalidade direta pro gol adversário, que era defendido por uma garota montada em uma bateria de mais de dezesseis peças, dando suas pancadas na caixa, nos tons, nos pratos enquanto protestava quanto à distância que eu havia posto a bola: “mais longe, mais longe, isso aí!”. O time todo me apontava olhares de expectativa e apreensão, entre um olhar e outro querendo dizer “perde, filho-da-puta, pra você ver”, e eu começava a me preocupar se aquilo era realmente sério. Porque o gol não era feito de duas traves e uma barra, era feito nos fundos de uma garagem vazia, com uma escada velha de lado, manchas de óleo de carro na marca do pênalti e algumas ferramentas penduradas na parede oposta à parede da escada.
Quando ajeitei a bola na marca que a baterista pediu, não havia mais grama. Só terra preta, bem preta. Dei os passos necessários pra trás, calculando quantos eu usaria para a batida. Ia pegar de chapa, dando algum efeito à bola, embora acreditasse sinceramente que uma pessoa tocando bateria teria grandes dificuldades pra agarrar uma falta daquela distância, mesmo que muito mal cobrada. Porra, você devia ter visto como eu peguei na bola. Foi uma parábola louca, fez uma curva tão alucinada que me arrancou uma lágrima, viajou em mil rotações, que trajetória! Percebi que os caras do time ficaram admirados, ao meu redor. O outro time virou saponáceo em pó para pisos rudes. Pensei, “boa, garoto!”. Mas brotou do chão uma mesa de pingue-pongue e a bola morreu na rede. Da mesa, é claro. Aí armou-se uma confusão pra validar o gol, visto que a mesa não deveria ter aparecido assim. Se fosse pra servir de zagueiro, que já estivesse lá antes, bem antes, que tivesse evitado a penalidade inclusive. Sei que eu acordei antes da resolução do impasse, uma mulher ligou pra cá achando que era o número de um banco e eu bati palmas para que a doida na linha dançasse. Enfim, mas isso aí já é assunto de outro post.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bibliotecário

Eis aqui, as minhas vértebras.


Você já foi à uma biblioteca? Já quis ser sócio de uma e ter acesso à um maravilhoso acervo de livros que expandirão sua consciência, numa viagem de bilhete único pelo mundo de qualquer coisa? Sim?

“I, I , I , I , I... feel the wind blows... Well, YOU CAN sindicate ANY boat you row! I told you so!!!"

A introdução tem três acordes que se chamam e completam como numa cadeia de carbonos (eca), tendo como moto contínuo a batera de Mr. Starkey, cada pratada é o início de um novo ciclo e assim por diante até chegar a voz sobre um bem montado “lá” com suas nonas e quartas, e chama um F#m e daí por diante, sem nada que se preveja. Esse encontro de acordes Tônica – VI grau é alucinante demais pra mim. Eu podia fazer uma lista infindável de músicas em que isso acontece, mas não dá porque o número de músicas que conheço é finito e porque também não vou fazer lista porcaria nenhuma, já temos uma lista aqui embaixo.

Unirio, Urca, 12/09/2006

- Bom dia, trouxe a documentação pra fazer a carteirinha da biblioteca,
- Bom dia. Você trouxe tudo exatamente como está na lista?
- Sim, tá tudo aqui.
- Deixa eu ver... tá carimbado e assinado esse histórico? Ah, sim. Você vai pegar algum livro?
- (Não, eu vim fazer a carteirinha porque quero ter desconto nas Casas Sendas) Sim, mas não agora, vou olhar com calma primeiro.
- Vai lá buscar o livro que a gente faz logo a carteirinha e a saída do livro de uma vez.
- Não, se você quiser eu deixo a documentação aqui, escolho o livro e depois volto.
- Tá bom... Aaaaaaahh, não, não! Vou fazer logo essa carteirinha.AAAAAh, você faz História! (Disse isso como se eu praticasse masturbação terapêutica em público, em frente à um lar de idosos)
- É.
- Hum! Vejo aqui que você entrou em 2003. Por que está fazendo a carteirinha só agora?
- (Porque eu não sabia ler... fui alfabetizado somente neste ano de 2006, seu biltre...)Porque a matrícula aqui esteve trancada por muito tempo...
- Ah tá... (com desconfiança de que eu pudesse ser um estudante-bomba – o que não deixa de ser verdade, no meu caso) Então tá, pode ver os livros que você quiser...

Segui para o corredor dos livros de música, que já folheara algumas vezes naquela biblioteca.

- Olha!!!!!!!!!!!!!!!, gritou o sujeito, cheio das exclamações, realmente.
- Sim?
- Os livros de História estão ali naquele lado... e tem alguns no carrinho também...
- Obrigado, eu estou procurando aqui no corredor de música mesmo.
- Ahhmmm... , disse o sujeito, digerindo mal minha resposta.

Achei 2 livros bacanas e segui para o balcão.

- Você tem certeza que pode pegar estes livros? (Não, não sei se agüentarei o peso deles... me empresta um braço biônico, por favor?) Tenho.
- Hum... 19 de setembro, traga eles de volta... Estudante de História pegando livro de música... tá satisfeito com a História não, rapaz?
- (To mais satisfeitro com a História do que você com a sua mulher, biltre!) Tô sim... mas leio outras coisas além da História também... (Monogamia temática nas leituras, esse é o meu ídolo! Dá um beijo na bunda do Hobsbawn, canalha.)
- Pois sim... parece-me um conflito existencial... História e Música...
- (Ok, Lacan, passa a régua) Dia 19 que é pra trazer né? Um abraço!

E eu ainda devolvi os livros. Que merda.

domingo, 27 de setembro de 2009

Clipe da Rua 17: "Vai!"

video

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Pterodactilografia

Gosto de manhã. Um ser cheio de musicalidade que usa as palavras com distinta doçura e objetividade, o que a faz falar de si como se falasse do mundo todo junto. A apresentação fica ao lado e é seu trailer perfeito. Ela é um filme. Vários filmes dentro do mesmo. Letras de Beterraba e "Sleep Walk". Ou até mesmo a "Ne me quitte pas" que ficou pelo caminho. Ela é um mistério, e mesmo assim, nunca se viu nada tão cristalino. Madrugada e café. Lua e estrela. Ela se anuncia com o Mi menor, mas não há nada mais Lá maior do que ela. Ela é uma harmonia de quatro acordes. A F#m D E. Nem Junky nem Lonesome Traveler. Onde está o Rubem Fonseca nesse instante?

= =

Há dissonâncias demais, desencontros, desvios, desníveis, desasossegos, dislexia dos passos, John dos Passos, Senhor dos Passos e o cara que comprava os discos por uma ninharia, como fez com o Beatles for Sale que deixei lá mas que substituí por quinze pratas meses atrás. Há cálculos por fazer, renegocioação de expectativas, esperanças submersas bem longe do Pacífico, há tanto por pagar e tanto por agradecer, tanto por chorar, por duvidar, por arrepender. Ti-Jean, que tanto me marcaste com suas palavras, a década de 70 não te viu como não viu ao J. H., o maior guitarrista de todos, salve, assim como os Beatles ficaram pelo caminho não pela filha do banqueiro de Tóquio, mas pelos egos monstruosos que faziam sombras monumentais sobre os quatro moleques que dormiam amontoados em beliches de ferro em Hamburgo, exaustos mas rumo ao topo, Johnny.
= =

Não consigo relacionar as palavras-chave. Perco chaves. Episódios. Aulas. Tempo. Risos. Paciência. "A tristeza é um bichinho que parrueta sozinho. E como rói a bandida. Parece rato em queijo parmesão". É por aí. Não. É exatamente aí. Anoto os sonhos. Marco os bumbos no ônibus. "You only live once". Acerto todos. As ruas não me olham. Joguei as chaves pro alto e caíram na coluna e perdi os tênis tentando tirá-las de lá, o que ganhei foram meias molhadas e uma bronca do dono do bar pelo atraso pra levar o gás.

= =

Preciso começar de algum ponto.

Moedas.

Saudade.

Adeus nada, eu acabei de chegar.

E eu sempre estou indo pra algum lugar.

Blue Velvet. In dreams.

Nove de Março, Avenida Londres, Meia Um Meia, às Cinco e Meia.

= =

Parte disso foi dito em "Amor Supremo Coltrane Futebol Clube". Palavras de acrílico justapostas, datilografadas no ar, o papel não é ferido. Eu ia pro banheiro pra jogar conco minutos fora, umas quatro vezes por dia, porque aquilo lá era bem chato. Havia a mulher fumando na janela. Havia a hora do estica-e-puxa. O ascensorista Botafoguense que sempre aceitava os biscoitos que eu oferecia. Não é nostalgia. É fotografia. Recorte. Ayahuasca em pó solúvel, rende cinco litros. Sobretudo, humano. Pra onde se aponta há rastro do pensamento de alguém. Você não foi o primeiro. "No caso do Haiti, foi pela reescravização, não?". Só eu salvei esta frase. Grande coisa. Preciso ver Angel's Flight. Como precisava ver o Dakota. Prefiro a desconstrução do que a demolição, embora haja o irreversível e o imponderável na mesma frase, e isso é bastante perigoso. Preciso dormir. Mais da metade de tudo que penso não sabe que eu existo. Apenas números. A propriedade da palavra escrita é subjetivamente adquirida por quem a lê. Não me culpe nem me absolva. Me agregue. Me inclua. Me seja. Me ame. Tchau.

Músicas Legais de Se Encontrar Por Aí Quando Não Se Tem Nada Daqui Para Dialogar Com Outrem, Amém.

  • Sleep Walk - Santo & Johnny
  • Mannish Boy - Muddy Waters
  • Bowl Me Over - Acid Casuals
  • Lonely Teardrops - Howard Huntsberry ou Jackie Wilson ou Huey Lewis
  • Camisa Amarela - Nara Leão
  • Preciso me encontrar - Cartola
  • In the Mood - Glenn Miller
  • There must be an angel (playing with my heart) - No Angels
  • We belong together - Ritchie Vallens
  • Meeting Place - Last Shadow Puppets

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Unattainable" (Little Joy) by Marco Bandini's Lonely Heart at The Folk Ways of Freedom

segunda-feira, 27 de julho de 2009

In Dreams

Vem a manhã
Consumir
Fatos
Fulos
Fartos
Eu.
Sumo
com o
Amanhã
que a
manhã
traz.

Uma Dylanesca

O tempo é oco
Nas veias
Do Sr. Jones
Ele não sabe o que isso é.
Indo pra Acapulco,
dobro
a rua
hirsuta
cantando
que seus olhos são
dois brilhantes no céu
pedindo
mais uma xícara de café
para a estrada.

Numa quarta-feira de 83

Disseram "vai"
e eu fui
Não
sem antes
tropeçar
na tripa
da mãe
E quase foder com tudo.
Tendo tanta
Coisa
Mais adiante pra foder.
Depois
Resta

Essa minha cara
de
Tijolo
na chuva.

Da Janela

O céu

tão
azul
que dá
na telha
pular

de cima
da telha
do
céu
azul

Frases Capturadas, Capítulo Um

Frases capturadas nas ruas do Rio de Janeiro, em demasia, e criteriosamente selecionadas pelo Júri Cherubino, em ordem sempre suspeita.

"ah, fica nessa mesmo de falsa puritana..."

"ô sandália do CARALHO que arrebenta toda hora!"

"traz o quimono sim, pô, coloca no meu armário, pode sim, pô"

"aí você tem que ver com qual supermercado o seu vale-alimentação tem convênio"

"senhor, estamos sem ar-condicionado no momento, deseja entrar mesmo assim?"

"eu não como vento, menos ainda gelado, por causa das amígdalas"

"o de sempre: três de cebola, dois de champignon e dois de gorgonzola"

"ah, faltou um? gorgonzola!"

"amiiiiiiiiiiiiiiiga, pode comer que a gentispera!!!!!!"

(ao telefone) "não quero mais, tá?! NÃO QUERO!"

"mata e seca o rato"

"mata e seca gente?"

"sei não, parceiro. acho que só funciona com rato e ratazana"

"Hamilton, chama um peême porque aquele cara quer matar alguém com chumbinho, eu ouvi tudo"

"é, eu tô com olheira mesmo, ela é insaciável, tu tá é com inveja!"

"Não, eu ainda não acabei o meu arquivo"

"Não tá pronto não, tô acabando já"

"até o final do dia? que hora isso significa?"

"caramba... claro que não está pronto, tá mal posicionado demais isso aqui!"

"PORRA, vou dar um OFFSET de 55,7 mts no olho do seu RABO, pra ver se assim eu fecho essa quadra aqui! Não enche!"

Décimo-nono, por favor

- Mas sr. Cherubino, o dia inteiro aí e só desenhou este condomínio?
Sua produção é medíocre,
Tendendo ao nulo!

- Ora, chefe. Convenha, o porvir:
Aqui há tantos e muitos mapas,
Mas ninguém sequer sabe pra onde ir;

Eu, cá, por demais me procuro
à ponto de soco em ponta de faca;
Minha produção anda no escuro
Por causa dos meus escritos escondido,
SEU BABACA!

Porto Morricone

Porto longe demais daqui.
Nem Bandini nem bandeira alguma
Envergaria o vento que vem de lá.
Despedida de papel molhado.
Tanto amor pra dar,
Todo que coubesse
Na bandeja onde os copos secam, sinceros
ao lado da pia.
Sem recibos, nem ajustes
Versos, risos, tudo que poderia caber em Long Beach, por uma semana que fosse.
Eu versus
aquela gaivota preta.
Irremediavelmente fixada
Naquele céu de mentira,
Vermelho.

Aquela nuvem realmente comeu seu cachorrinho? ou "Giulietta Morricone doesn't live here no more"

Mulher fumando na janela
Sol lavando a fachada dos prédios da Vargas.
Clarabóias e antenas papeiam papo de elevador
sobre pombos, granizo, e essas coisas.
Lembro do amanhecer laranja sem dormir.
Com os novos olhos, bobos
Todos aqueles acordes,
cancioneiro Los Hermanos
Pois é,
Oh, olhe o que você fez!
Vou embora fraturado
pelo coqueiro vermelho que me atropelou
Enquanto eu esperava,
e esperava.

Extintores Colômbia - Parte Terceira

Pó químico só deve ser usado em casos de incêndio de natureza elétrica. Em caso de inflamáveis também. Não os egos, é claro. Gás carbônico você usa quando quiser. Olha pro topo dos prédios que desfilam pela Rio Branco e se imagina limpando a vidraça de uma repartição em qualquer vigésimo-sétimo andar. Vertigem. Faltam apenas dez minutos para o final do horário de almoço. Não sinta sono, prometa. Fique feliz. Até mais ver.


Assim disseram os Extintores Colômbia. Pela vez terceira.

Lágrimas Negras, Ralas de Tanto Chorar

Tem café que parece
um punhado de lágrimas
do sofrimento grão
Caiam, lágrimas negras, ralas de tanto chorar.
Certos cafés são como mijo;
O alívio de quem produz
É o sofrimento de quem toma.

Hai-Kai Demissional

Deitei nu sobre o carpete.

Justa causa.

Mulher na porta do Edifício Olavo Bilac

A moça da blusa de chupetas
pega o metrô todos os dias.
E fuma na entrada do prédio.
Olha a aliança que aquele garoto
Da aula de reforço em física
lhe deu há seis anos e meio atrás.
O topo dos edifícios emerge nas poças
A moça da blusa de chupetas
traga, traga e traga
O sinal abre
Mendigos sonham
Eu entro no prédio.

1976

Eu e o desejo nas mãos.
E você,
na faixa quatro
Do lado "A"
Meus olhos querem fazer soar
Dourados
os trompetes de "Adlai Stevenson"
Mas
o que rola é
O trombone
de "Fica mais um pouco, amor"
Do Rubinato

Canção de um homem magro

Eu voltando pra casa. É só um filme, mais um. reprise. Eu não posso ver, em detrimento de algo muito melhor pra fazer, que é voltar pra casa pra sair de novo.
O mundo não cansa, sabemos dos danos, sabemos disso. Importante mesmo é chegar, não ir, amanteigado pelas horasm transtornando-se no vir.
Chegar é o que valida tudo. Ir é vir é um mero pragmatismo de que prefere, outrossim, caminhar.
Quem chega jamais pertence à volta. Não obstante, nunca obstante, o brinde da ida deve estar derramado ao longo do caminho tal que existe só porque houve quem chegasse, certos caminhos só dão a impressão de sempre terem estado ali quando há um olhar retrospectivo ao chegar.
Todo o resto pertence ao asfalto.
E incluo nisso as lágrimas de janela, as de bocejo e as de desejo;
Cada lágrima me custa 173 pratas e 18 centavos;
São caras por causa dessa mania de teimar no olhar.
É tudo que eu sou.
Sei da vida bem menos do que sabe qualquer Lua que me vê, mas mesmo assim, teimo em insistir;
No olhar.

Sylvia, as crianças e o Fiat

Eu vi a Sylvia Plath
Guiando, verde-musgo-poeira
Um fiat uno
Com suas
Duas crianças
No banco de trás
E um
Adesivo
dos Thundercats
Bem ao lado da placa cinzenta
E meu ônibus
que não chega.

domingo, 26 de julho de 2009

São Cristóvão

O 472 já estava ali na Figueira de Mello. Para fazer um registro mais preciso, estava há exatos alguns poucos metros do ponto onde eu desceria. Mas, ali mesmo, tudo parou. Nem um minuto e meio parados, tomou a palavra um coroa de jaqueta velha e boné surrado de uma fábrica qualquer de tintas:

"Taí, esta merda. Sinal abriu, não andou! Caminhão do caralho! Tomar no cu. Tudo parado! Eu? Eu falo mesmo. Num fode. Trabalhador. Puta merda. Fechou, abriu de novo, nada. Tá lá essa merda. Quer sacanear, né? Tomar no cu. Andou nada não. Trabalhador. Eu falo mesmo."

Eram as mesmas palavras, só rearranjadas, só alternava a ordem em que apareciam. Ele estava compondo quase uma canção desgracenta e lamuriosa, mas bem longe de ser uma nova "Construção", com seu movimento genial e inevitável à favor da gravidade.
Desci ali mesmo e olhei pros carros todos e ônibus parados. Não demorou para que eu encontrasse o causador da inércia na Figueira: um caminhão basculante que descarregava terra. Choviam notas apáticas e estridentes de todas as buzinas presentes e enfileiradas. Todo mundo dos comércios de ferragens ou borrachas ou auto-peças ao redor veio para a frente dos estabelecimentos assistir reverentemente ao imbróglio figueirense. Quis olhar pra cara do culpado, do protagonista daquela cena tensa. Lá estava o motorista, manobrando com dificuldade, mas absolutamente livre de tensão, longe de parecer intimidado ou pressionado. Demonstrava tranquilidade e até certa obstinação em finalizar a manobra. Despejou toda a terra ali na calçada. Logo, a terra sangraria barro pelas sarjetas, por causa da chuva que molhava os toldos, o viaduto cansado, os carro que logo iriam pros seus destinos e à mim, inflexivelmente.

Mp3, Amor e Pimenta

É curioso demais ver que uma música instrumental componente do disco "Yellow Submarine", cuja trilha traz as músicas executadas no longa de animação homônimo, acabou indo parar numa grande engrenagem da indústria brasileira do entretenimento, uma novela. "Pantanal", da extinta Rede Manchete. A música foi composta, orquestrada e arranjada por Sir George Martin, e era parte de uma suíte muito bacaninha do final do disco. O mais curioso de tudo é que "Pantanal" me apresentou à faixa, antes do disco. Eu não tinha muitos motivos bons para ver esta pérola da teledramaturgia nacional, além do belo festival de seios nus que muito me agradavam e que a novela fornecia abundantemente. Mas, quanto à música, nada mal estar ali. Ela entrava sempre nas belas tomadas aéreas do pantanal mato-grossense, rios, tuiuiús, canoas. Grande sacada remetê-la à contemplação, evocar a plenitude, pensamentos dourados brotando, essas coisas. Isso me faz lembrar das cenas que aparecem na minha cabeça quando ouço certas músicas. Isso tem acontecido muito com um tributo bluegrass ao Hendrix que tenho ouvido bastante. Baixo, violões, banjos, bandolins, steel guitar, gaitas. "Crosstown Traffic" bluegrass traz cenas de fugas à pé por ruas movimentadíssimas. Já a versão de "All along the watchtower" aponta mais pra uma fuga automobilística, com algum dinheiro entocado, um lance mais "Bande à Part". É como quando escutamos "The burning of the midnight lamp" com o Clapton. Há amor ali.

Piratininga Blues

Eu estava lendo sobre futebol. E o Hendrix cantava a doce e melancólica "Drifting". O Hendrix era paranóico com isso de cantar. Ele não era nenhum "The Voice", mas era uma voz bacana sim. Mesmo caso do Clapton. Bobagem, pô. E com que direito ela entra no ônibus com aquele rabo-de-cavalo nascido numa manhã fria, chuvosa e difícil de levantar, em Piratininga, e rouba minha atenção? "Circles", George Harrison. Os jornais dizem que eu não gosto do George. É tudo mentira. Não tenho tempo para você agora. Não me amole. Ela desceu no ponto da academia. A calça de ginástica estava entregando tudo, claro. A bunda singela. A bolsa de pano imitando o couro alvinegro da zebra. Sem despedidas, muito menos olhares furtivos. "You really got a hold on me", Smokey Robinson, versão dos Beatles. Robinson está vivo. Lennon não. Quem poderia supor? Muito estranho. Isto aqui foi escrito, palavra por palavra, durante as paradas do ônibus. Um detalhe curioso: quando se tem pressa, o coletivo pára até em pontos inexistentes. Quando você precisa escrever num caderno azul e necessita das paradas para impor algum ritmo na escrita, Piratininga ganha freeways infinitas de frases trêmulas. Pelo menos agora, a melodia de "Junk" empresta um tom solene à qualquer coisa que eu escreva. Puta. Viu, ficou solene. Obrigado, Paul.
Piratininga está londrina hoje. Mesmo com seus pescadores, seus bares chulé, matagais. Quando cheguei aqui, algumas dessas palmeiras ainda eram mudas. Não que hoje em dia elas falem à beça, mas pelo menos já estão bem maiores. Há muitas outras mudas. O ônibus segue mudo do lado de fora dos fones de ouvido. Fico pensando se vou ficar velho um dia.
É bom demais ver o asfalto quando Piratininga está assim. As árvores refletem borrões em tons mais escuros que os da realidade, uma aquarela concentrada e triste, algo como a tristeza que há no si menor. Por cima do asfalto, nuvens de gotículas d'água que circulam como vestes de cada roda de cada carro que passa com mais pressa que eu. Fecho a janela e volto ao jornal. "Look at me", John Lennon.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

El Puerco de La Plata


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Mario Cherubino pervertindo Matisse



Desculpa, cara, eu sou um herege. Mas eu te amo.

sábado, 27 de junho de 2009

Amor Supremo Coltrane Futebol Clube

Chove copiosamente. O céu reclama uns bons estrondos luminosos. Dos quadradinhos da janela que lembram barras de chocolate, as folhas encharcadas do coqueiro do vizinho do lado, que dança com o vento que não cessa. O coqueiro dança, não o vizinho, que fique claro. Eu tomo uma mistura homogênea de café requentado e água e café solúvel. Esse bairro era uma aldeia de pescadores. Ou ainda é. Sempre tem alguém pescando na Lagoa. Sempre aparecem uns peixinhos também, de manhã. Devem aparecer de noite, claro, a questão é que não percebo. A chuva aperta. Expressão imbecil. Aperta o quê? O Jacko deixou este mundo há quase três dias. Eu escrevi algo, nada de editorial de jornal carioca. Algo sobre a interferência do Jacko sobre algo que posso escrever com certa razoável propriedade: eu. Postarei um dia desses. Hoje não. Hoje eu saí da Rua das Conchas pra ver meu Glorioso Alvinegro tomar uma surra em plena casa, no Engenho de Dentro, em nosso estádio, o Niltão. O algoz foi o Goiás. Que frase legal. “O algoz foi o Goiás”. É. O “Mulheres”, do Buko, está aberto nas páginas 88 e 89 aqui na mesa do computador. A caneca do Segundo Império denuncia rastros da bebida homogênea. Aqui é um sobrado bem legal. Até quando o vizinho de baixo e sua esposa (ela geme bonito, só nota limpa, entrecortadas com suspiros e frases de incentivo) dão uma festa como a que está acontecendo agora. Muitos decibéis. Mas eu até cantarolei algumas canções. Claro, quando a azia permitiu em documento datado e assinado e completamente ácido, que eu cantasse, ou respirasse ou qualquer outra coisa. O Monobloco canta uma bela música que chama alguns Orixás, gostei. Bem gravado também, inclusive. Segunda voz bem direitinha, nossa, vou lá embaixo tomar umas cervas às custas do casal vizinho. Camisa cinco, Leandro Guerreiro, estendida sobre a impressora. Porco de cerâmica olhando pro nada, rombo na bochecha, olho maior que o outro. Camisa do Bahia Esporte Clube sobre mim. Uma cueca verde. Meias. Que merda. Meu cabelo faz uns cachos de tão grande que está. Porra nenhuma. Tá assim tão grande não. Os coqueiros molhados ainda dançam, agora mais comedidos, agora são os caras tímidos que gostariam de ser descolados, mas o máximo que conseguem são uns passinhos redundantes de deslocamento bem reduzido. Bold as Love. Eu queria ser esse disco. Carma Instantâneo. “Não perca tempo! Leia o livro 'Universo em Desencanto'”. Rá, ouvi o Tim Maia dizer isso enquanto vinha pela Avenida Brasil junto com Augusto, Xarope e Chanadinho, metade História, metade Ciências Sociais. E todo mundo fazia uníssono: “...mas lendo apreeeendi, bom senso!”. Entramos num desvio errado, tivemos que pegar o retorno pra apontar rumo à Niterói. Dei “tchau” pro lugar onde nasci. Às margens da Brasil, mas na Londres, 616. Nasci bem pra caralho. HGB. That's not writing, that's typing”. Vá se foder, Capote. Pax Romana. Ela me manda o Maiakovski. Entorpeço. Escutar “Eu quero é ver o oco” me transporta pra 1995. A azia rói meu esôfago. E a tristeza é que é um bichinho parrueta. O mundo é o queijo parmesão. “E não me chame de filho-da-puta, eu sou ARTURO BANDINI!”. Parou de chover. Faz frio copiosamente e tem alguém chorando em algum lugar. Ou se cobrindo com papelão no cruzamento da Presidente Vargas com a Rio Branco. Ou nas marquises da Miguel Couto. Terrível a sensação de não ter pra onde ir. Onde você está?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A encomenda

Uma Fiat Fiorino dos correios na Avenida Lobo Jr. Liga a seta indicando querer entrar na Rua Bernardo de Figueiredo, cuja esquina tem uma loja de ferramentas e uma fábrica de biscoitos ao lado. O veículo pára na residência ao lado da fábrica. A porta da direita se abre e sai um típico funcionário dos Correios de dentro, obviamente: calça azul, blusa amarela, boné azul, enfim, quase um militante tucano, se existissem militantes tucanos.
O rapaz confere na prancheta o logradouro e o número da residência. Vê o nome do destinatário que deve receber a encomenda: Pérola dos Santos. Ele toca a campainha, que ressoa um zumbido grave e rouco, como uma cigarra que fumou dois maços por dia durante cinquenta e seis anos ininterruptos.
- Pois não? - diz irrompendo pela porta da frente, a sra. Pérola, enquanto enxuga as mãos de muitas veias aparentes no pano de prato.
- É a sra. Pérola dos Santos?
- Sim...
- É esta encomenda aqui, só assinar onde tiver um xis. - dito isso, pegou a volumosa caixa dos correios e pôs aos pés da sra. Pérola.
- Mas eu não encomendei nada... que estranho, moço... - retrucou surpresa a senhora que acabara de preencher o papel com suas assinaturas, necessárias para acusar o recebimento da entrega.
- Meu serviço é somente levar as coisas de um lugar pro outro, dona. Boa tarde pra senhora.

Tomada de precavida curiosidade, ela se ajoelhou, fitou a caixa de ponta a ponta e a começou a abri-la. Lá dentro, camadas de plástico bolha, devia ser frágil. Conferiu o remetente na caixa, só agora lhe ocorrera procurar saber quem mandava aquilo, pois essa encomenda não era outra coisa senão um aquilo qualquer dentro de uma matriz de enganos cotidianos. Estava lá: "Mario Cherubino - Desconstruidor de Ditos Populares."
Franziu o cenho quando confrontou aquela informação. Acabava de ser inserida uma lacuna caótica ímpar e indivisível dentro de seu programado e previsível cronograma de atividades diárias. Não conhecia ninguém com esse nome. Nem de sequer ouvir falar. "Mario Cherubino". Ainda mais perturbada, levantou a tampa novamente e removeu o plástico bolha com cuidado ainda maior. Viu uma peça de cerâmica, arredondada. Continuou a retirada, produzindo ainda mais caos no quintal bem penteado pela piaçava da vassoura Rossi. Havia uma fenda no alto da abóbada, uma fenda pequena. Começou a identificar aquele objeto, era familiar. Possuía cinquenta centímetros de diâmetro, aproximadamente. Era um cofre. Desses de porquinho, mas enorme. Daqueles que se compra bem em frente do camelódromo da Rua Uruguaiana. Estupefata, abriu o cartãozinho que o acompanhava:

"Senhora Pérola,

Só para mostrar à senhora e ao mundo que é plenamente possível enviar porcos à pérola, com tamanha facilidade e êxito total; sendo inclusive muito mais fácil fazer isso do que o ato inverso - por sinal, um ato muito mais alardeado e disseminado pela humanidade, há séculos.


Saudações carinhosas,

Mario Cherubino"

Sentou-se de frente para a encomenda completamente desorientada e quis chorar. Não lhe desciam as lágrimas.

Tudo por um sobrado na Rua do Ouvidor

- Bom dia, sente-se, por favor.

- Sinto-me. ARRRRRAUGLER (limpando a traquéia), eu gostaria de alugar um imóvel.

- Localidade, senhor?

- Bom, você procure aí um sobrado qualquer ali pela rua do Ouvidor, perto da Bolsa de Valores, que também é perto da estação das barcas, enfim, um sobradinho bacana que não esteja caindo muito aos pedaços.

- Um minuto enquanto a consulta é feita. Café?

- Tem creme?

- Não, senhor...

- Então não quero não.

- Como quiser, senhor.

- "Como não quiser, senhor", é o que você deveria dizer, na verdade.

- Senhor, localizei uma ocorrência que parece atender às suas expectativas. Ali mesmo na Rua do Ouvidor, em cima de uma loja de ferragens.

- Ótimo, minha filha. Pode imprimir o contrato?

- Há uma pequena obstrução senhor, quanto à disponibilidade.

- Claro, pequena, imagino. O que há?

- O imóvel estará disponível daqui a três vidas, no máximo.

- Menos mal. Pode me passar a senha cármica pra eu não esquecer? Sabe como é, são três vidas...

- A senha, senhor, é BISCOITO DE POLVILHO DOCE GLOBO.

- Tinha maior não? Tá certo, vou gravá-la hoje à tarde. Boas vidas, mocinha.

- Boas vidas, senhor.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Escritos numa sexta, observado pelo bandeirante paulista implacável

Deus, hoje é sexta-feira e o que eu mais gostaria de ver, a imagem que visualizo desde as primeiras horas da manhã é essa: os ponteiros do relógio de parede, seríssimos, solenes, mortos na posição belíssima em que o maior está cravado no doze e o menor no cinco.

Eu sigo cantando baixinho, no caminho até o banheiro e na volta até meu pecê: "Mas chegou o carnaval/E ela não desfilou/Eu chorei na avenida/Eu chorei"

O café agora divide-se entre "fraco" e "forte". O "forte" tem sabor de chá. O mijo dos gatos vira-latas da Presidente Vargas eles chamam "fraco".

Sinto azia até se eu ingerir ar demais pela boca.

Tem uma frieira no meu pé esquerdo que grita quando está com sede e gargareja quando estou no banho. E se alimenta da pele entre os dedos do pé, obviamente.

O Benito di Paula é de Nova Friburgo, o Marcelo Camelo mora em Copacabana, eu nasci em Bonsucesso e nós três nunca nos esbarramos pelo centro da cidade. E creio que dificilmente combinaremos algo assim um dia.

A mulher do vigésimo andar do Delamare está fumando agora, dez e nove. Blusa branca, olhando para o fluxo que corre inclemente pela Avenida Getúlio. Acho que ela não me vê. Vou trazer um cartaz qualquer dia desses.

Visitar o Sr. Nilcom é chato quando se está com calor demais, azia demais, chocolate demais, projetos demais e, mesmo assim, nada demais.

Gostaria muito de ter gravado toda a letra de "Stuck inside with the mobile", Blonde on Blonde, 66, pra desenhar sua bonita melodia por aí. Mas só sei as duas primeiras estrofes e o refrão. Dá pra alguma coisa.

Preciso de um violão de bolso, dobrável, claro. Remunero bem os projetos viáveis. É sério. Respeito as contingências que a física impôs ao nylon e à madeira, mas é questão de desejo, tanto e somente.

Aliás, o desejo é a menor não-unidade indivisível de qualquer coisa que te leva a ter como objeto desenfreado do querer uma coisa qualquer no mundo.

Bye, Nilcom.







P.S.: Para saber mais sobre Nilcom, mande um e-mail para markthebeatle@hotmail.com , tendo no campo do assunto a palavra "NILCOM". You're a lovely audience.

Pós-aniversário ou Demissão de véspera

Em ponto qualquer
Da Buenos Aires -
sem Borges ou Cortázar -
Mãos estropiadas me alcançam
O pequeno papel
De um entregador de papéis
"BUCETÃO DE DEZ"
me diz o recorte.
Eu murmuro pesaroso:
"Oh, minha nossa..."
E penso.
Penso.
E penso.
E concluo.
Bem barato para um bucetão, não é?

Frapê de Capuccino

- Um frapuccino.
- Hã? Como?
- Frapuccino.
- Dois capuccinos?
- Não, caralho. FRAPUCCINO.
- ... !?
- Essa bosta gelada ali ó, café gelado, pô.
- Ah sim, o senhor quis dizer Frapê de Capuccino.
- Pro inferno! Não é a mesma coisa?
- Não.
- Então fodam-se o frapê, você e estes cafés de merda! Até mais.
- SENHOR!
- Sim...?
- Eu te amo.
- Então faz um desses, com caramelo por cima. Pra viagem - estendendo uma arara ruborizada de dez pratas.
- Me leva junto com você, senhor?
- Não sei... se ficar bacana, você tem chances.
- Obrigada, senhor. Seu troco - devolvendo uma tartaruga marinha completamente blue e umas pratinhas.
(Após algumas tragadas no canudo do frapê e alguns grunhidos de satisfação)
- Maravilha isso aqui, viu? Olha, Plataforma vinte e seis da Novo Rio, dez e quinze.
- Mas senhor, eu saio às dez!
- Não se atrase - disse taxativo e caminhou inexoravelmente para fora do shopping.
- Oh, senhor, eu te amo tanto... - choramingou e balbuciou, com os olhos marejados.
Eram oito e quarenta e quatro. O gerente dobrou o avental que fora deixado apressadamente sobre o freezer há alguns minutos e riscou o item "frapê de capuccino" da tabela de preços.

Avenida Londres, 616.

O Burroughs Bill matou
sem querer
sua Joan (Mrs Klapper, what a lucky one you are!)
O Dylan, que eu saiba
não matou ninguém.
O Thomas sim: ele mesmo.
Jean-Louis tornou-se Jack
Na estrada,
Pequenas e grandes cidades.
Fante casado, quatro filhos
Uma casa em "Y"
E quatro prestações atrasadas
Do seu Porsche.
Hank Buko morreu
No meu fantástico aniversário de onze anos.
E eu
neste quarto
somo
vinte e seis
e nada
é tudo o que fiz
até o momento
que passa
invariavelmente
a cada
segundo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Extintores Colômbia - Parte Segunda

Tento chamar os extintores Colômbia, mas eles não vêm. Se eles calculassem a grandeza da importância que eles exercem em cada um destes dias, duvido que não tratassem de logo aqui estarem. Mas se não há como tê-los aqui, paciência, que seja assim mesmo, sem eles.

Meu código de barras já está bastante desbotado. Parecendo aquelas tatuagens baratas feitas com carga de caneta bic e agulha de costura. Vou pegar um formulário de solicitação de reforço de demarcação pessoal na saída. Em dois dias terei um código de barras novinho. Giulio Côrtes veio visitar-me ás dez. Falou de modo eloquente sobre Jeanne e Marco, o gladiador. Claro que eu nada disse durante todo o tempo, muito mais ganho em somente escutá-lo. Decorridos dez minutos de sua chegada, ele foi bruscamente, cuidadoso para que o relógio digital não lhe mostrasse três palitos e um zero. Eu entendi perfeitamente.

Estou à sessenta e um minutos do banho de chuva. Isso, é isso mesmo. O sol está advertido e condicionalmente proibido de vir aqui nestas bandas por enquanto (a não ser que venha desbotado como meu código de barras), por conta de um desentendimento com A Matriz. Como isso é possível? Os russos têm aquelas cápsulas de chuva, certo?! Nós também. Eles também, eu quero dizer. O banho de chuva dura uma hora e nos é permitido fazer a refeição central neste espaço de tempo, é apenas chuva, não há mal algum em comer e molhar-se. Eu tento ler jornais enquanto como, mas é uma prática que se revela tão pouco prática e cansativa, visto que a água desce aos cântaros, desigual, no pátio, e o jornal vira mingau, só pela rima.

Às duas, vamos todos para a câmara dos ais. Dispensa maiores explicações. Para que nossas juntas não apodreçam, colocam cada um de nós em um catre especial de aço, com suportes laterais, feito abas. Cada membro do corpo é bem amarrado por presilhas de couro ligadas à quatro cabos de aço bem tensionados cada um deles passando por uma grande roldana, e à cada movimento de manivela esticam-se nossos braços e pernas até o estalo característico.

Pelo menos dura apenas dez minutos.

Às três, hora do caldo sofrido. É o mais terrível do dia todo. Colocam as roupas íntimas de cada interno (creiam, cada um de nós dispõe de uma cueca e um par de meias por ano, dadas pela direção) numa grande caldeira com água fervendo. Depois de meia hora, estarão como novas. E assim obtemos nosso Caldo Sofrido. Para cada recipiente de vinte litros, um copo pequeno de essência de baunilha e vitaminas, além de muito açúcar. Sirva-se.

Dez minutos após a ingestão do caldo, vamos para as pequenas reformas. Minha seção cuida das roupas, geralmente, dos funcionários do Estado, que necessitam de acertos, arremates , remendos etc. Não aguento mais tantas linhas. E usamos uma linha mais resistente, a poli-linha. Inserimos os pontos um a um. Cadastramos cada botão. "Serviço de qualidade prestado em altas velocidade". Nosso lema na seção. E ai daquele que não produzir no mínimo quinhentos e dois pontos por dia.

Difícil mesmo é quando você chega aqui, logo após a triagem, e lhe pedem para escolher qual orelha sua será cortada. Um mecanismo muito simples de submissão. Escolhi a direita, aleatoriamente, há questões em que pensar muito à nada leva. Essa é a doutrina um do livro do embrutecimento, dado gratuitamete na primeira semana de casa. Se quiser o meu, está aqui na gaveta.

À cinco, soa a sirene. Só escuto de um lado, claro.

Eu pego minhas coisas, o casaco dobrado sobre o braço, mijo, assino o ponto e vou pra casa.

Nada como mais um dia de trabalho.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Canção à Venda ou Cantiga de Escárnio ao Cara Que Vendeu o "For Sale" por Miséria

Ali na Senhor dos Passos/Há o filhote de um Fagner com um Mayer, José/Ele compra discos usados/E/Mesmo pagando mal pacas/Me levou fácil o "For Sale"/Que eu nem estimava tanto assim/E serviu ao próprio nome com propriedade/Me custou caro, puto!//

Pombos azuis, doentes, insanos, do milho da Tiradentes/Arrulhavam em meu caminho de volta/No hotel Paris, elas cantavam, sarcasmo!, "words of love"/e doía.//

Hamleto desarmado no João Caetano, mostrando o dedo médio/O Camões abriu aquele olho maroto e disparou do Real Gabinete: "misteeeeeeeeeeeeeeeeeeeer moooooooooooooooooooooooonlight...you came to me, one summer night..."/Largo de São Francisco, moradores de rua dançam "I don't want to spoil the party"/Desembestei Ouvidor abaixo até a Bolsa//

Quase na estação das barcas, o João Sexto/Montado no cavalo com colhões de batata baroa magalômana/Sussurrou, bochechudo, "Baby's in Black"/Por entre os dentes/Alívio só no balanço da baía/Antes de ver o Assembléia Dez requebrando assustador/Dentes arreganhados de vidro e aço/"...Hold me! Hold me! I ain't got nothin' but love, babe! 8 days a week!"//

Atracado já estava/Ansiando o terminal Jango/Mas o Araribóia, voz de barítono, esfregando as mãos/Cantarolava, marcando no pé chato: "I've just seen a face, I can't forget the time or place where we just met, she's just a gir..."//

Atravessei, furioso: "SEU MERDA, ESSA É DO 'HELP'"!/Emudeceu, cruzou os braços, atarracado, fazendo beicinho/Imóvel ali, olhando a baía do Rio//

Mãos nos bolsos/Cabisbaixo/Agora vou por mim/ "I'm a loser"//

Enquanto todo mundo finalmente//

Fica em silêncio///

Estudo de ênfases porcas, Pres. Vargas, 435

Eu deveria ACORDAR
Antes que esse prédio me vestisse
Com o olhar viciado
Dessa janela CANSADA
Que me empresta este ofício triste
De NUNCA olhar para
nada.

Hai-Kai do desespero neolítico

Tanto mundo,
Que
eu
andei

só.

Esperanza y Tristessa

Qualquer coisa
Ali entre
O "Blonde on Blonde" e o "Desire"
Você é pra mim
A mulher Le-Bris
Anglo-Saxofones
Rabiscam melodias de ouro
Em festas franco-canadenses
Que rolam nos seus dentes brancos
Naqueles sorrisos
De pára-quedas;
Mas o gênio é de semáforo.
Último ato da tarde,
Cartada laranja do sol,
Fios de alta tensão
Desenhando pautas no céu,
Você é.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Bando à Parte

Artur não amava Odiléa nem um pouco,
Mas a tinha nas mãos.
Odiléa era louca por Artur.
Este, amigo de Chico,
Que, por sua vez, era (e é) louco por Odiléa.
Dona Vitória com aquela grana toda, suja.
Limpa estaria, se roubada fosse.
Odiléa tremeu, Artur lhe bateu, Chico corou.
A velha praguejou, antes de apagar:
"Odiléa! Tanto que te confiei!"
A grana sumiu.
O velho chegou.
Bang, bang.
Artur rodopiou peneirado e caiu no quintal.
Odiléa e Chico no carro esporte, fugindo.
Na estrada, a capota
Não sobe mais.
Mas eles
Não estão nem aí.

Confissões de uma estrela do rock n`roll

Olha, é mentira esse título. Sou nada estrela. Nem estou confessando nada também. É só porque certas palavras atraem mais, como "confissão" e "estrela". Que o digam os padres e os astrônomos. Sendo uma estrela do rock então, o interesse é muito maior nestas palavras.
Tenho uma banda camada Os Dezassete Arruaceiros. A grafia é essa mesmo, "dezassete", por causa do filme de Doug Phillys, "Os dezassete caminhos do desejo". E também porque somos dezessete integrantes. Eu sei, parece excessivo, desnecessário. Mas não é, acreditem. Até reduziríamos o quadro se a escaleta pudesse ser tocada junto com a gaita-de-foles.
Escrevo agora sob o calor da nossa participação em um renomado festival anual de bandas de nossa cidade, o "R de Rock". Fomos um dos quinze selecionados dentre mil e seiscentas e duas bandas. Pensamos: "Que moleza!". Seriam disputadas duas eliminatórias, distantes uma semana uma da outra. Primeiro dia, a grande noite, lá estávamos nós, (des)preparados para ser a segunda atração do evento.
O grupo "The Feck's Molly" abriu os trabalhos. Atacaram com sua "Abóboras Chocantes", um hit meia-boca capitaneado por meia dúzia de jabazinhos prudentes. Seguiram-se à essa outras duas músicas, sobre a qual não tenho muito o que falar, visto que eram todas duas também monocórdicas e monogâmicas, injuriando a nós e ao público, exceto a torcida que eles levaram numa merendeira azul do cão Snoopy.
Entramos, pois, em seguida, dezessete varas verdes de bambu amontoadas em um palco diminuto, como são quase todos os palcos em que subimos. Após aquela camuflagem do nervosismo que é a checagem dos instrumentos, saudamos o público e sacamos tres pérolas: "Bem debaixo da minha unha", "A vingança de Roque Rascunho" e "Cha-cha-cha para tu-tu-tu". Mesmo sabendo da qualidade de nossas composições, tentamos apresentar algumas macaquices ensaiadas para o júri, mas o cabo curto de meu alaúde elétrico nos atrapalhou, visto que sou o crooner e atuo bem no front, à frente das trincheiras. O microfone deu-me um choque tão violento que desintegrou alguns fiapos de meu bigode - cultivado com carinho para o show - , logo antes do solo de cítara. O camarada da tuba não estava microfonado. Os irmãos italianos das escaletas - baixo e tenor - suavam em bicas. O japonês do flugel e o ruivo da bombardina trombaram em um refrão. Jimmy Carter, da flauta, não conseguia abrir os olhos. O indiano do címbalo ria à plenos dentes pra disfarçar. Sem que percebêssemos, havia acabado. Fomos ovacionados. Pelas nossas namoradas. Descemos sob o fuzilamento dos olhares da maioria, cápsulas vazias de desconfiança e desdém cobriam todo o chão.
Os outros três grupos da noite, seguiram à risca uma mesma cartilha em comum, ao que parece. Macaquices, máscaras, fantasias, gases e vômito vertido pelas narinas., tudo para impressionar o distinto júri. Horrorshow, drugues!
Uma banda convidada e já bastante viajada e bem alimentada fez um show minimalista e conceitual no encerramento, trazendo referências dos filmes do Cassavettes, segundo disse o baterista. Ao final do show, seria divulgado o nome da fortuita banda finalista! Carnes trêmulas!
Ouvindo aqui e ali o burburinho geral, comprovamos: éramos uma banda à parte. Depois de nove minutos e quarenta e três segundos naqela correria, morreríamos rodopiantes sem a grana da Dona Vitória.
Para surpresa de todos, exceto da turma do cãozinho Snoopy, The Feck`s Molly carimbou sua ida à grande final. Urros de alegria. Abraços. Discurso. Tapinhas de congratulação. Maledicências. Estas, de nossa parte, claro. Caras de velório à caminho dos três carros mobilizados para a nossa ida e em todo percurso da volta. Mas a vida seguiu e uma vitória naquela noite talvez tivesse impedido a dissolução parcial do grupo.
O garoto ruivo da bombardina foi com um primo orelhudo para Steamboat Valley, California, para abrirem um restaurante especializado em culinária iídiche, abusando, claro, de pãezinhos e saladas;
O japonês do flugel foi parar na Ilha de Santorini por conta de uma banda que integrou, num cruzeiro e fixou residência por lá, onde vive com sua esposa e seu filho, o adorável Tchano Yamagochi;
Os dois irmãos italianos que tocavam, respectivamente, escaleta baixo e tenor, foram tentar a sorte na Sicília, aonde tinham raízes fincadas, trabalhando como figurantes na montagem de "The Godfather IV";
O indiano do címbalo retirou-se à um monastério e hoje vive desapegado da matéria e dos próprios cabelos, vivedo uma vida imersa em humildade e em devoção religiosa;
Jimmy Carter, da flauta, até hoje vai pra cama com dezenas de mulheres ao contar esse episódio em boates. O curioso é que foi assim que ele conheceu a herdeira dos negócios das famosas Sandálias Tijucanas S/A e hoje vivem felizes em Nileápolis.
Eu escrevi este artigo e em seguida o enviei para todos os oito jornais do Estado que conheço. Depois de incômodos cinco meses, a "Folha de Lourdes" entrou em contato para publicá-lo e me convidar para ser seu colunista semanal. Como o jornal circula apenas no bairro, as somas pagas são modestas. O jornal é distribuído com apoio da Padaria Central de Lourdes, sendo assim, me pagam em guloseimas e outras pequenos víveres, como torteletes e sonhos de creme, que como sempre com intensa avidez. Não é ótimo?

Bom, assim ficaram os Dezassete. Cheios de sonhos e memórias, assim como eu. As memórias eu trato de compartilhar para que sobrevivam à nós, eu e você e todo mundo.
Os sonhos eu deixo agora guardados, sempre.
Há formigas demais neste sobrado.

A Brush of Dreams

"objeto destinado ao ato de varrer"
diz, sisuda, a vassoura italiana
para que mais serve uma vassoura?
bater?
expulsar?
cavalgar?
equilibrar?
voar? (alô, Marlene!)
desfazer casamentos
Eu digo de cá, que a vassoura
serve mais
pra fabricar doze linhas, mais do que qualquer outra coisa

sábado, 6 de dezembro de 2008

Extintores Colômbia - Parte Primeira

Não se sinta um impostor, quando estiver andando ali pelo centro da cidade. Quebre os passos ali na Ouvidor e vá passar o olho por uns livros e filmes, quem sabe algumas bancas também, em último caso, a livraria que fica na Travessa - mas não esqueça de conferir a indumentária antes de empurrar a porta. Não me cometa a asneira de comprar "Eraserhead" com a grana acumulada dos almoços de uma semana inteira, VESTIDO ASSIM. Embora talvez o filme bem valha a sua fome. E essa calça sem cinto.

Vá seguindo o meio-fio, mas sem bajular qualquer linearidade, não, não, não, não, você é o grande impostor das linhas retas, das poli-linhas, das curvas e dos mapas. Pssssst. Tenha suas certezas, mas fale sempre baixo. Não adule essas putinhas.

A vasilha do sono sempre tem as paredes rachadas e estoura às 13:17 hs.

Geléia real. A manufatura da sonolência tem essa exata consistência. Aí os olhos ficam besuntados dela, merda, blergui, a retina vai sumindo, a geléia come solta pelos nervos óticos e o próximo passo é o cérebro des....li...gar.

Água na cara. No rosto. Na cara. Apenas 37% da capacidade de concentração e aproveitamento de memória. Quanto? Um litro e meio de café dopa? Na verdade, isso aqui é água quente, o café está às margens dos trilhos de Sampa. Isso de "café", em empresa, é um eufemismo, um recurso estilístico figurativo feito pra esse chá com cor de uísque se sentir bem, pra essa garrafa com um caubói decalcado e descascado em seu corpo estar aqui na bandeja em cima de um paninho, que por sua vez fica sobre uma geladeirinha cheia de marmitas sonhadoras. Algumas têm arroz azedo. Elas nunca dizem nada. Fico calado então.

sábado, 18 de outubro de 2008

Carta ao Velho Noel

Buenoéxito, 11 de dezembro de 1988.




Querido Papai Noel,



Eu sei que sou um bom garoto. No decorrer de todo esse ano que passou, o senhor pôde perceber isso. Eu sei, eu sei. Não espere que eu vá, por conta disso, acabar com uma bic inteira fazendo uma lista esferograficamente grande demais para ser lida. Não, não. Pra falar a verdade, eu ando preocupado é com o meu futuro, que depende bastante da boa vontade do senhor em atender cada item dessa pequena listinha. Nada de presentes, sim? Autorama, Castelo de Grayskull, Lego, essas merdas todas o senhor esquece. Apenas dê um jeito de me providenciar o que vou pedir, com um diferencial logístico sensacional: o senhor começa a me entregar só daqui a vinte anos.

Segue:

- pelo menos uma xícara de café expresso por dia - com o creme anexo numa outra xícara (cabe mais!), por favor.
- nacos semanais (e bem servidos) de queijo gorgonzola - sim, pode ser o Boa Nata mesmo, sem problemas.
- pães.
- assinatura de banda larga (não, eu não quero um autógrafo gigante seu) *o senhor entenderá este anacronismo tecnológico dentro de uns dez anos.
- auxílio-locadora mensal no valor de cem pratas (não, não teremos mais cruzeiros, cruzados e cruzetas)
- auxílio-livraria no valor de duzentos e cinqüenta pratas (essa bosta de trema também vai sumir, velhinho)
- algum jeito de dormir com as canelas bem esticadas

Bom, considerando que o Juquinha e o Pedrinho são os moleques mais filhos-da-puta que eu conheço e que, mesmo assim, cada um deles pediu uma Ferrari, um Pense Bem e um Genius gigantes, além de todos os jogos lançados pro Atari (se o senhor puder, me traga River Raid IV, mas pra esse ano ainda, gosto desse jogo mas não acho o cartucho em nenhuma loja!), acho que minha lista está bastante razoável, o senhor não acha?

O senhor receberá um sinal meu pra começar a me entregar os itens. Vai ser moleza. Estarei completamente duro, tomando um café de moedas contadas, desempregado (mas cheio de idéias sensacionais) e escrevendo furiosamente num caderninho azul, numa das mesas de granito redondo do Light Café enquanto pessoas com narizes de veias estouradas passam pra lá e pra cá rindo mais alto que a música dos alto-falantes do shopping lotado.

P.S.: me desculpe pelos palavrões, sinto que não conseguirei parar de usá-los daqui a vinte anos.

P.S. 2: ah, foda-se. vou falar palavrão até ficar velho que nem o senhor.

Do seu amiguinho,

Mario A. Querubino.




domingo, 12 de outubro de 2008

A Palmheart Salad does it better

Sol, claríssimo de si:

O estandarte falante

De tudo que opaco

Se torna,

Disse assim:

Aquele sonho que andava

Ao meio, metade só

De si

Um siri

De lado, consoante na vida

Dormente do trilho

Que vai

Pra qualquer lugar,

Transbordou

Siam.

sábado, 13 de setembro de 2008

A morte trágica de Dom Porcone, assistida por quem quisesse ver

- Porcone? – sussurrou o garçom, Mario Querubino, atrás do vultoso cliente.
- ...

Dom Porcone suava como se todos os seus poros mijassem sobre a blusa de botões relutantes e resistentes, criando poças assimétricas por todo o tecido, que exalava o aroma de gordura derretida por todo o perímetro porcônico.
Mario Querubino lançou. E lá se foi um prato com dobradinha, couve, feijão preto de ontem e arroz branco de agora há pouco, entre o pescoço e o colarinho. O prato fez um barulho rude na mesa do shopping, mas não quebrou, só fez um “PSIU” pra quem passava por ali e pros que estavam sentados.

- Isso é pra você parar de ser assim, seu montaréu de betume.

- Ah, filho de uma puta, garçonzinho desgraçado, eu conheço o Orlando, vou falar com ele agora, você está fodido, me acredite que está!

Dom Porcone de pé, dezenas de curiosos ao redor do Deque do Pirata, a mancha de feijão no peito, e o rabo muito bem posicionado entre as pernas, punhos cerrados, boca cerrada, olhos cerrados, calor do cerrado, o ódio queimando feito óleo.

Zune um botão, assitido por todos, até o final de sua trajetória.

Porcone parece maior.

Outro botão.

Três. Plaf-Pleigh-Plough.

Porcone inchava, aumentava suas dimensões à razões descabidas de mencionar aqui, estava já nos seus dois e setenta de altura, a largura já havia sepultado os três metros, e mais, a pele estriando-se em rasgos vermelhos, três e quarenta, o papo inchado e sem palavras, a roupa em trapos no chão, todo o shopping chocado com o inchaço crescente, quatro metros, Querubino erguendo os olhos quase até o teto para acompanhar aquele balão de pêlos se avolumar no corredor da praça de alimentação, POU.

De volta ao trabalho.

E todos sujos de merda.

sábado, 30 de agosto de 2008

Balarráus

Às vezes você sente morrer
aos poucos
num frio do cacete?
com os dedos das mãos duros
mas
mesmo assim, você puxa
a coberta
mas sabe que
fica tudo menor ainda
é quando o mundo todo
faz com que soe
como se você fosse
uma pequena balarráus
na boca de alguém

eu tô fora disso, falou?

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A fantástica coleção de dias de Jack Willend!


Jack Willend segue no ônibus encarando um sol cansado de cinco e pouca da tarde, está indo fazer sua história. Ele escuta “Mannish Boy”, o Bo Diddley dizendo: “I’m a man... M-A-N”. E ele pensa, “porra, eu também sou, cara”. Não, Jack Willend não é americano. Ele vive seus dias enfileirados irregularmente em Niterói, Rio de Janeiro. Aí você me pergunta: e esse nome anglófilo? “Jack” veio dos livros que o pai lia, Willend veio do pai de seu pai de seu pai, até o primeiro Willend, cuja origem e trajetória não fazemos a menor idéia sobre. Jack tem um quarto de século já vivido e morre de medo da proximidade cada vez menor da entrada em sua terceira década. É lá que suas expectativas moram confortáveis, é pra lá que ele está indo, um pouco a cada hora, a cada semana. Mas o leme quebrou, Jack. A agulha da bússola desmagnetizou. Ele tenta propor algum acordo à si mesmo, tenta fazer o acaso de refém, tenta aparar os exageros e a forma desencadeada como se infiltraram em seus dias, que, se colocados em evidência, expoem um dia sem textura, amarelo pacas, que começa pelo meio e termina bem no comecinho de outro dia, com passeios em círculo por livros, formas, filmes, currículo, azia, água no rosto, cueca, obturação. E o tempo segue desmoronando como cartas em meio à um tufão no meio do salão do campeonato sul-americano de castelos de cartas. O diploma de Jack o espera, está lá em suas mãos, eu vejo claramente, em dezembro de dois mil e onze. Ele está de beca, entrando no auditório do clube, após terem anunciado seu nome, alguém aperta o “play” no aparelho de som e toca “Paperback Writer”, e é exatamente aí que esse instante encontra eco no refrão “melancolia-da-ida-à-faculdade” do presente, de todas estas cinco e poucas da tarde de todos os santos dias, amém. Enquanto caminha triunfante pelas tábuas enceradas e brilhantes, cercadas por olhares jubilosos e jocosos, ouve o George Harrison atacar no riff e o Paul entra contando a história de um cara que quase implora para ser lido, e aí vem uma rajada certeira de um OH, MERDA, EU DEVERIA ESTAR LONGE DAQUI! em suas bochechas de historiador de araque. Enquanto este dia não chega, vão se amontoando desordenadamente os dias amarelos, enfastiados. Já não há mais onde colocá-los. Blog, gaveta, armário, debaixo da almofada do sofá, na gaveta de verduras da geladeira, não cabe mais nada. Pelo menos, alguns de seus amigos vêm aqui visitá-lo, como Henry, Arturo, Norman, Salvatore, Dean. Mas cá pra nós, esses aí são uns babacas. Por acaso vão pendurar outro sol mais disposto às cinco e pouca da tarde, no céu do Jack? Vão comprar o pão e alguns biscoitos recheados e um vinho desses de garrafa de plástico? Claro que não! Por isso mesmo eu vejo o Jack ir e vir sem sentido algum, matar algumas aulas pra ir ao cinema e olhar nos olhos dos que passam como se fosse o maior escritor vivo pisando no solo irregular deste planeta. Vai ver que é por isso que lhe devolvem olhares empenados e obtusos. Meus amigos e amigas, Jack Willend está à deriva num oceano de possibilidades. Sem vela nem vento, sem leme, nem motor. E você, o que você faria? Jack pulou e nadou. E eu nunca mais o vi.

Uma ode ao sorriso nu

Hoje eu acordei ao meio-dia
E um pedaço do teto arrebentou a minha cara
O espelho que disse, foi por aí
Vi todos os filmes do quarto
Me achei um belo sacana
Esse sol todo em cima do prediozinho azul, fazendo festa pra mim
Lá estava o cara da obra da casa da frente
E esse muro ridículo estuprando a casa deles em duas
Tinha a placa de lona vagabunda da minha vizinha do primeiro andar,
"Dilma Morcego, sua vereadora"
Quem quer uma vereadora?
Ou uma placa de lona vagabunda?
Me querem pra uma entrevista amanhã
autocad, autocad, autocad, autocad
Eu me matei não tem nem cinco minutos, pulando da janela
E a candidata debochou do agonizante, ali no chão
"vaipraputaquepariu", foram minhas as minhas palavras finais
E ela bateu a porta dizendo baixinho
Que tudo isso que eu fazia era só
Uma ode ao meu sorriso nu

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O dia em que não existi mais



Acordei às sete e doze. Atrasado pro trabalho, é lógico. A não ser que eu consiga fazer o trajeto Itaipu x Penha em menos de sessenta minutos, o que sempre é muito improvável diante das baldeações obrigatórias: descer do primeiro ônibus para pegar a barca e em seguida o segundo ônibus, no centro do Rio, na Primeiro de Março. Só que hoje, exatamente hoje, aconteceu algo muito estranho. Começou quando saí da estação das barcas, na Praça Quinze. Ignorando o fato de estar completamente imerso nessa bosta que é o atraso, parei diante do painel de uma banca dessas que vendem até desde a Folha de São Paulo a uns livrinhos que não são apenas “Sabrina”, enfim, daquelas bem grandes, para ler as manchetes do dia. Estava lendo sobre meu Botafogo querido e suas glórias recentes, quando um almofadinha desses de terno, maleta e testa suada veio como um bonde e me jogou longe, estirado junto aos pombos azuis e as pedras portuguesas da praça. Levantei já pronto pra tirar alguma satisfação com o sujeito, que seguiu adiante sem hesitação alguma, nem sequer olhou pra trás. Puto da vida que eu estava, alcancei-o e tentei empurrá-lo, de lado. Qual não foi minha surpresa ao notar que meus braços pareciam de papel. O terno do cara nem amassou, nenhuma fibra do tecido se mexeu. O sujeito, menos ainda. Menos puto, mas não menos preocupado, dei um safanão no painel com os jornais diversos da banca. Um sopro de um asmático em plena crise teria surtido efeito muito melhor. Intactos. Painel e jornais. Segui na direção do ponto de ônibus, atravessando toda a praça, passando pelo monumento do D. João VI e seu cavalo sem bolas, pela entrada da Bolsa de Valores, pelos taxistas entediados falando sacanagens, pelo Arco do Telles, por mais uma banca, olhei a Igreja de São Sebastião, dobrei, agora estava na Primeiro de Março, vi os ambulantes que vendem biscoitos e doces, os sobradinhos, o Mercado à Jato e parei, bem em frente a ele. Reconheci a moça de nariz fino no ponto, era a Srta Bico Fino, ela faz parte do meu cotidiano, oras. Virou uma personagem do folhetim diário imutável que protagonizo. A Srta Bico Fino entrou, deixei-a passar, que cavalheiro eu sou, e subi os degraus do ônibus, escapando por pouco de ficar preso na porta, que se fechou quase em cima de mim. Estendi o riocard no leitor e nada aconteceu. O trocador também não olhou para a minha cara de babaca de nove e quinze da manhã. Incomodado, sentei nos bancos da parte anterior à roleta. Assisti aos guindastes, armazéns, mendigos e às pessoas desesperadas e amontoadas nas portas dos ônibus mal-humorados em frente à rodoviária Novo Rio. Ninguém sentaria do meu lado, ou sentaria em cima de mim, julgando estar o assento vazio, pensei. Mas não entrou mais ninguém depois do ponto que fica atrás do antigo prédio do Jornal do Brasil. E na avenida homônima ao jornal, o ônibus vai pela via seletiva. Desfilaram pelo trajeto todas aquelas pequenas cidades onde as leis são outras, as casas todas amontoadas e sem pintura, mas sempre com um sorriso na fachada, seja porque é uma bela manhã de sol, seja porque tudo está em paz ou simplesmente porque sorrir de manhã é bacana.
Até eu, inexistente, sorrio, ao lembrar que nasci às margens dessa avenida vinte e cinco anos atrás. Lembrei disso quando passei em frente ao Hospital Geral de Bonsucesso. Enquanto seguia com meu “In my life” particular mesclado ao meu “Nowhere Man” existencial, o ônibus deixou a seletiva e subiu o viaduto que desemboca na Lobo Júnior, pulmão da Penha. O coração fica do outro lado, após outro viaduto. Aproveitando que alguém subiria no ponto que desço, me desembestei pela porta da frente mesmo. Sem oposição alguma do motorista. Menos ainda do passageiro que subia. Atravessei a rua e já estava na porta do trabalho. Não precisei tocar o interfone porque o auxiliar de serviços gerais limpava a entrada, de porta aberta. O porteiro estava distraído, ou consciente de minha inexistência. Subi os quatro lances de escada daquele prédio abafado, o ar úmido do corredor lembrava um calabouço. Isto é, não sei, nunca estive em um calabouço. Abri a porta e ninguém levantou a cabeça. Eu realmente não existia mais. Devo ter morrido no trajeto da barca. Ou descendo do ônibus ainda em Niterói. Nunca quis morrer em Niterói. Diabo, nunca quis morrer. Ah, já, mas quem nunca quis? Sentei na minha cadeira azul e o chefe do setor despeja na minha mesa, sem olhar pra minha cara de babaca das dez horas da manhã, uma folha com as informações sobre a fibra ótica TR-035. É o serviço de hoje. Eta negócio esquisito esse de não existir.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Quando estiver duro, deixe por conta do Bob Dylan

- Opa. Vocês aceitam cartão de débito?
- Ô meu filho, a passagem custa só dois reais. E não tem como pagar com cartão.
- Ah, sim, um minuto, eu volto já.

Jack Willend acabara de ser demitido na semana anterior. E agora ele estava indo ao escritório de contabilidade da firma, em Rocktown Ville, cidade duas horas distante da sua, Palmheart City, para receber o cheque de sua rescisão contratual. Justamente por achar que sairia do escritório com os bolsos cheios de notas, ele gastou, rápido demais e sem dores na consciência, todo a parca quantia que possuía na carteira.

- Me veja aí este jornal de esportes, o "The Town and The City" e quatro torrones com castanha-de-caju.
- $ 9.75.
- Aqui está - ele disse, estendendo a nota vermelha de dez.

Com a passagem de ida já comprada e alojada em um dos bolsos da calça jeans, guardou os dois jornais, mordeu um torrone e jogou na mochila os outros três restantes. Procurou pelas plataformas o ônibus para Rocktown, apresentou o bilhete, ouviu "boa viagem" do condutor enquanto mastigava e acomodou-se na confortável poltrona, que ocupou sozinho por todo o trajeto. Leu as principais notícias de ambos periódicos, ouviu música e deu cabo dos torrones com facilidade. Feita a refeição, olhou o relógio, eram 12:37, e contou o dinheiro que sobrara na carteira: $ 1.30.
Mesmo sabendo que tomaria outra condução em Rocktown, da rodoviária até o centro, não se preocupou, pois contava com dezoito pratas no banco, e poderia sacar tranquilamente a grana em um caixa eletrônico daqueles vermelhinhos, vinte e quatro horas.
Já no saguão da rodoviária, tendo desembainhado o cartão para finalizar a operação, recebeu do caixa a informação: "APENAS DISPONÍVEIS NOTAS DE VINTE PRATAS, SEU BABACA". Bem, não exatamente assim que dizia, mas foi como ele se sentiu, um perfeito babaca, porque dezoito menos vinte dá menos dois, e esse resultado o caixa eletrônico não aceita. De posse da valiosa e única prata, mais exatos trinta centavos, e já tendo amaldiçoado pelo menos um dos torrones que comera, dirigiu-se ao guichê de ônibus locais e travou o diálogo que vimos no início da história.
Sem saída, voltou ao guichê.
- Hã, hum, eu preciso embarcar num ônibus pro Centro, mas só tenho $ 1.30.
- E quanto aos $ 0.70 que faltam?
- Dependem da sua camaradagem.
- Se vira.

Resignado e sem a menor idéia do que fazer, sentou-se num dos bancos da rodoviária e afundou a cabeça até que os dedos travassem nos cabelos, bagunçando-os. Com a fisionomia tensa, mas nem tanto - na verdade, aquilo era um deboche para consigo mesmo - , olhou em volta e sentiu que não podia espremer o ar com os olhos até que brotassem as moedas necessárias. De súbito, apalpou a mochila, rezando para encontrar a gaita - sim, ele sempre anda com uma gaita na mochila, acreditem-me - e achou-a, fitou-a, vitorioso. Pôs-se de pé e foi soprando, pentatonicamente, atraindo para si alguns olhares curiosos dos que passavam. Tirou a camisa, enrolando-a em volta da cabeça como um turbante, pensando em qual canção atacar, e então atacou resoluto, de olhos fechados, remexendo os braços e as pernas desengonçadamente, esta aqui:

Well, God said to Abraham: "kill me a son"
Abe said: "Man, you must be puttin' me on"
God said "NO!", Abe said "what?!"
God said: "you can do what you want, Abe,
but next time you see me coming you better run..."
Well, Abe said "where you want this killing done?"
God said "out on highway 61! Yeaaaaaaah"


Quando abriu os olhos, viu que os seguranças da rodoviária já estavam vindo ver o que acontecia ali; um sujeito insano cantando alto e dançando (?) sobre um dos bancos era algo que realmente merecia atenção. Jack preparava-se para desenrolar a história para os carinhas uniformizados, desde os torrones comprados lá em Palmheart City, enquanto voltava ao chão. Olhando pra baixo, viu algo reluzindo, junto a um dos pés do banco. Já havia alguns curiosos ao redor, os seguranças perguntavam o por que da galhofa, e Jack estranhava a ausência de doações dos transeuntes por sua performance. Nada. Nenhum dinheiro, nenhum centavo. Mas ALI, ali estava, desde muito tempo antes, sabe se lá quanto, uma prata de borda dourada, a suprema entre as moedas todas do país, bem ali embaixo dele, esperando ser vista e retirada, a excalibur das moedas, pelo mão de sua majestade Jack Willend, o rei dos pé-rapados. Tirou seu turbante ridículo, ouviu risadas e abaixou-se pára colher a moeda escondida. Se a tivesse visto minutos antes, sua pequena apresentação musical não teria acontecido, certamente. Explicações dadas, Jack agora avançava confiante para o guichê, para pagar, na totalidade, sua passagem de duas pratas. O trocador emudecera. Jack cruzou a roleta como se cruzasse o Rubicão. Entrou no ônibus e sentou ao lado de uma senhora. Abafou o riso. A senhora pensou "que debochado!". Olhou para as casas da cidade serrana que passavam na janela da senhora. Jack estava radiante. O ônibus ganhava as ruas cheias de curvas de Rocktown Ville. E o jovem Willend estava convencido de que devia setenta centavos à Bob Dylan.

Invocando Nilcom

- Olá, senhor Nilcom!
- Arrã, arrãm, o que deseja, garoto?
- Ahn, eu gostaria, se possível, que o senhor me tornasse escritor.
- E se não for possível?
- Eu quero que assim seja, do mesmo jeito, como eu sempre quis tudo aquilo que nunca era possível.
- Muito bem. Então ponha a mão sobre a maçaneta e mentalize, vamos lá.
- ... , ... , ...
- Agora levante deste trono e escreva!
- Mas... já? Eu sou agora um escritor?
- Sim, você o é, tanto quanto Nilcom eu sou! Levante já daí e escreva desesperadamente, pelo resto de sua vida, garoto!
- Obrigado, muito obrigado, senhor Nilcom!

E assim que saí de dentro daquela cabine de brancura impecável onde deixamos sempre as nossas máculas, sorvi o ar geladinho que me rodeava e tornei-me, definitivamente, um escritor.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Eu ando de saco cheio do meu trabalho e essa é apenas mais uma manhã



"Um giro secreto em nós faz girar o universo/A cabeça desligada dos pés, e os pés da cabeça./ Nem se importam/Só giram, e giram" - Rumi

Bem, e aquela era mais uma manhã, como todas as manhãs são mais uma manhã, no meu caso. Claro que a vida seria outra se não fosse aquele mesmo roteiro: o longo tempo com o jornal a tiracolo, por toda a casa. A rotina é tudo que mais amo mas também é objeto de tanto ódio, por que tem de ser assim? Digo isso porque o dever, quando me chama, o faz a qualquer momento, sem trégua nem constrangimento, esteja eu doente, triste, de coração partido, mau humor ou em crise de identidade, certo é que o rotor do destino nunca para de girar, e o faz sempre bem debaixo dos meus pés.
Ao menos, com o tempo, aprendi a afiar minha percepção, e seguramente, sei quando tenho de levantar para o trabalho sem qualquer ajuda. Basta ter muita atenção e um ouvido bacana. Geralmente, eu sabia a hora porque ouvia movimentos ao longe, e as vozes iam se aproximando, SEMPRE falavam sobre mim antes de me requisitarem, por isso me orgulho em dizer que NUNCA fui pego de surpresa. Ora, eu acho até que amo meu trabalho, mas quem é que não pragueja e blasfema uma vez na vida? Ou algumas? Ora, sejamos coerentes, e coerência só se usa de si para si mesmo.
Entre as coisas que mais sinto falta, a música é o item que mais me incomoda. Não pela ausência de canções, mas pela repetitividade de algumas. Quem me dera escutar outras melodias nesta casa, acordar com o desenho bonito que faz a melodia de “Ziggy Stardust” ou chorar algumas mágoas com “It’s all over now, baby blue”, ou até mesmo tomar o café da tarde com meu amigo Artie Shaw soprando como se fosse um passarinho no outono, em cima do fio que passa pelo poste. Vocês não sabem, não sabem mesmo o que é ser torturado pela mesma melodia todos os dias. Sim, pode ser que nosso estado de espírito ajude ou atrapalhe, é claro. Mas ouvir a mesma melodia todos os dias desde o seu nascimento não é para qualquer um, meus caros. Dançá-la graciosamente já são outros quinhentos, os quais eu faço questão de pagar adiantado, passando recibo assinado. Tudo o mais que ouço e conheço é escutado ao longe. Ruídos. Nada atravessa as paredes e a porta desta casa quando ela está trancada, e acreditem, conto nos dedos de uma só mão as vezes em que ela se abre em um ano. Eles recorrem a mim quando estão tristes, enfastiados, melancólicos, ou apenas a fim de entretenimento besta ou apenas pra distrair algum vizinho novo ou uma visita esporádica, aquele negócio de quebrar o gelo, sabe?
No geral, tendo ao tédio, basta uma apresentação minha para que me conheçam completamente. E mesmo que muito me amem, uma olhada só já basta. Muita sorte minha estar vivo. Ainda que só.
Sem expectativas de encontrar alguém, ou de ser encontrado. Uma condição que não me aflige, apenas estranho saber que muitos por aí vivem em função disso, precisam de pessoas aqui e ali, e eu só preciso, se muito, de mim mesmo. Me é indiferente também a opinião alheia. Não por arrogância, mas por convicção, não há nada que eu possa fazer a respeito das más impressões que eu venha causar. É tudo definido no nascimento. Pá, pum. E sabemos que no meu caso, tudo se trata ir morrendo todo dia, até não dispor de mais nenhum movimento, de música nenhuma para dançar. Mas digo que é válido viver assim. O pouco que ofereço muitas vezes provoca boas reações nas pessoas, o que me reconforta. Ora pelas lágrimas, ora pelos sorrisinhos, pelos olhares reflexivos, até pelas caras idiotas. Muitas lembranças são evocadas pelas pessoas enquanto eu trabalho, juro por Deus. Talvez por isso mesmo eu nunca tenha jogado a toalha. Por isso mesmo o destino vai continuar girando aos meus pés. O mundo também, vai continuar girando à minha volta. Mas eu não vou sair do lugar, de jeito nenhum. E nem parar, jamais. Até que a caixinha se feche mais uma vez, pelo menos.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

= A =


A, letra, palavra, aberta assim, enfrenta aí ou aqui qualqueeeeeeeeeeeer PA Ra Da porque só sa-be dizer assim de cara e fala todos os aaaaa e eeeeeeeee e mais ainda, é claro, os aaaaa, pois é chave, ele não fecha nada, repare, aaaaah, viu? Eu vejo todos os “A” com distinta vista, magna carta assim não se chamou à toa, e não haveria tanta pompa, tantas assim que sejam, de acentos e crases, não fosse a ágata que é a letra primeira, não sei se neste distinto caso de ser, se o posto deriva de causa ou de efeito, de fato, eu cá nada sei mesmo, mas com um “a” em cada nome, me esquivo de ficar por qualquer canto, à esmo, o sucesso é uma escolha, sim, e por não escolher, é que se torna o porco torresmo, veja bem, não lhe é dada a letra, aaah, passagem certa, entrada, saída, sim, o que chama e manda, que diz “Cá!” e “Vá!”, acorde com sétima e quiçááááá também a dominante, permite o começo e o fim ao mesmo instante, sim, não há freio, pela rima diria que com o meneio, fico tonto, e o último que cá estiver, por obséquio, coloque aqui, o ponto.


terça-feira, 10 de junho de 2008

"Adiós, Jill Dumas"

Era realmente o máximo tocar bateria em uma gravação de Bob Dylan. Comandei as baquetas em "T.V. Talkin' Song", uma dylanesca dos anos 90 em tom menor. São quatro exatos minutos, em ponto, na mosca. Eu fui marcial, sucinto, preciso como uma bomba-relógio, sem firulas nas viradas, sem ser espalhafatoso nas pratadas. Um excelente trabalho, sem dúvida. E sem modéstia, claro. Já em "Don't think twice, it's all right" eu me preparava pra fazer a introdução, aquela violinha esperta, mas os dedos travaram, o que fez com que Bob soltasse um grunhido de desaprovação e me olhasse feio, como se dissesse: "Man, you must be putting me on!". Aí então fui tragado de volta da sessão de gravação bruscamente, por uma voz seca e áspera como se processada através de um monte de lixas enterradas em um monte de areia, dizendo: "acorda!". Era o Jill Dumas, chefe de produção da fábrica de biscoitos de soja onde eu trabalhava, a Sewig. Eu não me reportava direto à ele, havia primeiro um supervisor de produção, mas era inexpressivo. E, caceta, estávamos eu, Dylan, Salvador Paradiso e Dino Morientes prestes a entrar num autêntico Buick 61, em direção à São Francisco, com Dino dirigindo, é claro. Na verdade, Dino e Salvador estavam dando vazão à uma enlouquecida idéia que me fascinara: cruzar os EUA, de leste a oeste, do jeito que fosse. Eu teria ido junto, logicamente. Anos mais tarde, Salvador escreveria um livro que se tornaria uma espécie de muralha da China literária, algo sem precedentes nem sucessores, baseado na vida pela estrada. Ainda grogue pelo sono, olhei para a esteira à minha frente, embaçada, onde eu deveria inspecionar atenciosamente cada biscoito que passasse, separando os defeituosos, partidos e despedaçados. Claro que a partir daquele segundo eu estava sendo lançado no centro do picadeiro, com todo o pessoal da produção servindo de espectadores da espinafrada que viria pra cima de mim. O próprio Jill Dumas, parado à minha frente, franziu os cantos do lábio inferior pra baixo, arqueou as sombrancelhas e murmurou um "Muito bem...", que pareceu ter saído até com estas reticências, das profundezas negrescas de sua barriga macilenta. Andou até a seção de empacotamento como se fosse o próprio Horatio McCallister*, escritinho, em pessoa. Escolheu um pacote fechado qualquer, rasgou o lacre da tampa superior com calma, retirou a embalagem plástica que guardava os biscoitos e enfileirou-os, um a um, em cima da esteira, imóvel, me olhando como um gárgula modorrento. "O sr. pode me explicar como isso aconteceu?". Merda. Não prestava um biscoito sequer. Todos danificados. Ainda por cima, eles eram feitos na forma de bonequinhos, o que me deixava numa situação ainda mais patética do que apenas ter sido acordado pelo manda-chuva da fábrica durante um cochilo dylanesco. Era ainda mais constrangedor ser execrado por aquele exército de bonequinhos mutilados, descabeçados e pernetas, que me olhavam e escarneciam enquanto estavam ali estirados na esteira. Voavam farelos a cada gargalhada. Cochichavam uns com os outros, debochavam, partiam ao meio de tanto rir. Alheio aos pequenos canalhas e suas risadinhas doentias, o olhar inquisidor do Jill tentava me intimidar. Eu estava nas cordas, e se caísse ouviria a contagem até dez, ali, imóvel no chão; Não havia para onde correr, nem mais nada a fazer, era a hora derradeira de pedir penico e me entregar, simplesmente. Estávamos a uns quinze minutos do soar do gongo do almoço. A pressão era perceptível, o ar estava denso, aquele silêncio pesava sobre todo mundo. Encarei o Jill como nunca havia feito antes. Avancei firme para a esteira, próximo a ele, e tomei a embalagem de sua mão. Sem desviar os olhos, comi os biscoitos que estavam enfileirados na esteira, um por um. Hahahaha. Aqueles malditos debochados se lascaram todos. Mastiguei-os impunemente. Resoluto, avancei nos próximos três pacotes e fiz o mesmo, devorando todos os biscoitos defeituosos. O polido e durão Sr. Dumas espumava, olhos arregalados de ódio. Sacudiu as mãos no ar, vociferando, praguejando, xingando. Ainda com as bochechas lotadas de biscoito, tirei o avental e a touca. Saí da seção. De súbito, girei nos calcanhares e voltei, pra surpresa de todos, ainda atônitos. Procurei pelo primeiro balde de desperdício (onde depositávamos os biscoitos defeituosos) e cuspi nele toda aquela massaroca que estava na minha boca. "Biscoitos sabor merda, é isso que são!", bradei de peito cheio e tornei a sair. Tirei a camisa do uniforme e embolei-a, foi um arremesso certeiro no cesto de lixo do corredor. Abri meu armário e vesti uma camisa completamente amarrotada, que fedia à suor seco. Tranquei o armário, quebrei a chave na tranca e desci. Bati o ponto de saída faltando cinco minutos pro almoço. Me despedi do porteiro, gente boa, e cruzei a porta da saída, mais do que nunca, de saída. Experimentei o sol do meio-dia, agora em liberdade, e ele estava amarelão e invencível, como há muito não o havia reparado antes.
Segui a rua Bernardette de Figueroa direto até o cruzamento com a Conde de Abrolhos, e logo já embicava para entrar na Highway 61, som ligado, aquela dose rubra de céu pelo retrovisor, o Dylan atacando com "Everything is Broken" pelos falantes, o caminho para o Oeste cada vez mais curto, no banco de trás a minha Olivetti Lettera com suas teclas possantes e loucas para serem tamboriladas, a minha doce Carmella sonhando comigo e me esperando ansiosamente num hotel em Angel’s Flight e o Buick dando tudo de si pra dar conta de deslizar macio pelas freeways até a minha amada.
A Califórnia se aproximava, e nada nesse mundo poderia detê-la.
Aí você me pergunta, à esta altura: “Oh, e o que houve com o Jill Dumas?”
É aí que eu lhes digo, francamente, meus amigos;
O Jill Dumas que se foda.


*Pesquise no Google imagens

domingo, 18 de maio de 2008

O Envelopador

Uma hora e quinze pra ir embora. Eu fico sempre pensando na vida além daqui. Ou de qualquer outro lugar que me entediasse tanto quanto. Embora eu seja devidamente remunerado pelo tempo que disponho à eles. Mas acho que sempre foi assim. Sempre aqui, mas com a cabeça no dia transcorrendo inteirinho lá fora, em todo aquele sol que torrou a areia da praia, aquele mesmo sol amarelo e febril que invadiu meu quarto vazio depois da hora do almoço, no livro interrompido pela soneca após a refeição, cujo prato, depois de vazio e preguiçoso, se recusara a caminhar para a pia. Além da tarde dourada ao acordar, com aquele tributo ao Bob Dylan girando no som, volume 78, graves reforçados, o slide atacando a si e a mi daquele maravilhoso Folk e a voz caipira e bem impostada do rapaz (?) cujo segundo nome é Aaron, cantando "... Yes and only if my own true love was waiting...", tornariam a tarde completamente ímpar, é claro, e fundamentalmente, se eu ESTIVESSE lá. Isso é desolador, não? Penso nos empregos que tive ao longo deste quarto de século. Um dos trabalhos mais imbecis que tive, descolei no desajeito total dos meus dezesseis anos. Consistia em envelopar papéis em envelopes plásticos transparentes. No primeiro envelopamento você perde cerca de dois a três minutos querendo abrir o envelope com os dedos, depois segue tentando fazer com que o papel (ou papéis) entre (m) esticadinho (s) no envelope. Aí alguém mais caleijado está te observando e diz: "Não, não faça assim que é perda de tempo! Tá vendo aquelas pilhas de cartas? (sim, acho que eram cartas, algo de um banco, informes, provavelmente) Elas não vão diminuir se todo mundo fizer assim igual à você!". E aí você aprende que deve apenas friccionar de leve a boca do envelope e depois soprar ali dentro; em seguida, tentar fazer um cilindro com a carta e acomodar no envelope, até que ambos - carta e plástico - se acomodem naturalmente. E isso em trinta segundos, se você estiver no auge da prática. O lugar era um galpão sem janelas, teto bem alto, inúmeras caixas com os plásticos e pilhas inacabáveis de cartas ou extratos ou o diabo, espalhadas por todos os cantos. E é um belo exercício de resistência - ou de rendição - à monotonia fazer isso por oito horas diárias. Pelo menos a tonteira leve provocada pelo assopra-assopra compensava em diversão o que sobrava em tédio. Então era mais divertido observar - sem exceder seu "tempo-base" de envelopamento, é claro - se havia algum nome curioso ou que me fizesse rir, como MARCEANO fez. O extrato do Sr. Marceano foi um achado. Hahahahaha. Fiquei tão impressionado com a coragem dos pais do Sr. Marceano que li mais de duas vezes só pra comprovar a minha estupefação. Azar da pilha, dos plásticos, do sr. Correios, quem sabe. A maioria ali no galpão era composta por funcionários dos Correios, que usavam como uniforme uma blusa pólo azul com a logomarca bordada do lado esquerdo do peito, onde bate o coração, onde se guarda os amigos, que dizia a canção que na América não ouvi, porque ainda não estive lá. Como os funcionários não davam muita trela aos funcionários temporários como eu - reconhecidos, além da inaptidão primária, pela ausência de uniforme - eu simplesmente PRECISAVA que cada uma daquelas pessoas tivesse nome. Ao menos na minha cabeça deveriam tê-lo. Bob Rino era um deles. Um camarada muito grande, quando estava de bom humor tinha a cara mais feia e carrancuda do galpão. Às vezes ele me encarava como se dissesse: "Tá olhando o quê, babaca? Envelopa estas porcarias direito!". Eu baixava os olhos e voltava pros envelopes, com medo que ele me escutasse pensar, o filho da mãe. Havia uma garota por quem me apaixonei instantaneamente, eu reconhecia nela uma dançarina de um popular programa de televisão e isso me animava deveras a amadurecer a idéia de um possível contato, algum dia. Mas isso não aconteceu. Tinha o Seu Bituca também. Um senhor, um coroa com os seus cinqüenta e tantos anos, que parava de cinco em cinco minutos pra devorar um cigarro. Sim, acredito que ele os comia com sofreguidão, com lágrimas nos olhos de tanto prazer, nham nham nham, devoção, nham, nham , limpava os cantos da boca e voltava ao seu banquinho e aos seus envelopes. Ele parecia qualquer coisa defumada, tinha cheiro de fumaça a qualquer hora do expediente, acho que conseguiu isso com muita perseverança e muitos cigarros, sem dúvida. Acho que o Seu Bituca só largava os cigarros pra mastigar comida mesmo. Eis um tema agradável: a hora do almoço. Mas não era um alívio, como deveria ser. Ora, eu estava trabalhando ali justamente porque era duro como o rock (trocadilho que não funciona em português), e o pagamento sairia apenas depois do término das atividades, logicamente. Então, tão duro quanto eu havia chegado, ainda tão duro eu estava na hora do almoço. Nem tanto assim também. Com uma prata e algumas moedas que quase faziam outra prata, era só achar uma daquelas casas de doces onde os revendedores costumam comprar seus produtos. Não seria difícil achar uma dessas na parte mais feia do Centro da Cidade. Ha! Apreciador que eu era (?) destas iguarias que são os biscoitos formato sanduíche, com os mais variados tipos de recheio – nem tão variados assim, talvez – , resolvi desta vez deixar de lado as marcas mais consagradas e investir meu modesto capital no produto de uma companhia que fosse emergente, que estivesse buscando seu lugar ao sol com competência, bons ingredientes e simplicidade; pra que tirar das prateleiras os pacotes mais sedutores, que te incitavam e prometiam rios de leite e baldes de morango, pedaços surreais de chocolate, logomarcas cuidadosamente desenhadas durante a hora extra de algum almofadinha em seu escritório, com sua bela mesa, seus esboços, suas canetas e réguas que valiam sei lá quantas diárias de um envelopador. E provavelmente, naquele exato instante, almoçava do outro lado do mesmo Centro da Cidade em que eu estava agora, em algum restaurante com ar-condicionado e bastante alcatra mal passada com alho em seu prato. Tomado por estes pensamentos, peguei um pacote de péssimas cores, péssimas ilustrações e ótimo preço de mercado. Aquilo sim era um investimento. Eu me tornava, assim, um mecenas de uma entre as várias das pequenas empresas alimentícias do nosso país. O sucesso do produto seria instantâneo, alavancado pela corrente de boas impressões e pelo conseqüente boca-a-boca, venderia mais e mais, aumentaria a procura, as fábricas da então pequena companhia contratariam mais, lucrariam mais, virariam referência na fabricação e comercialização de biscoitos e o almofadinha da outra empresa praguejaria e desejaria ter nascido de novo, com a cabeça enterrada nas mãos, aos prantos, em um banco de madeira na Travessa do Ouvidor. Ainda maravilhado com minha escolha, percebi que em minha carteira havia orçamento disponível para molhar a garganta, e levei um desses copos de guaraná natural que são, na verdade, estas mesmas coisas em copos de embalagens diferentes: guaraná natural diluído um pouco mais diluído até ficar na cor certa, aquela bela cor de scotch. Minha empolgação com o gasto bem planejado da grana ruiu abruptamente e deu lugar à uma insatisfação crescente, acompanhada da minha cara de idiota nessas situações. Eu estava mastigando uma bela argamassa de farinha de trigo com alguma substância prima distante de bem longe daquilo que até então eu conhecera como chocolate. Aquele biscoito que comprei era um veneno. O santo guaraná agiu como um amoníaco num banheiro de terminal de ônibus. Mas comi todo o pacote e senti a barriga bem sedimentada, na textura certa,com o auxílio da bebida amazônica ingerida simultaneamente. Imaginei que só sentiria fome dali a muitas, muitas horas. Talvez só no dia seguinte. Uma leve preocupação sobre se aquele meu improvisado almoço daria trabalho na hora de abandonar meu corpo surgiu em minha cabeça, mas foi embora com a mesma rapidez com que veio. Vadiei caminhando pelo Centro até que desse a hora de voltar. E segui envelopando até que a pilha acabasse por completo e eu recebesse as diárias de serviço. E por aqui, olho no relógio da barra de propriedades e vejo que são quatro e cinqüenta e oito da tarde. Hora de cair fora. A tarde e o sol praticamente se mandaram, junto com o Bob Dylan, o quarto, o livro e a soneca. Mais um dia igual à ontem, que foi igual à anteontem, e ao primeiro dia aqui. Mais duas linhas, dois minutos e vou-me embora. Entediado. Só que sem envelopes desta vez.

domingo, 9 de março de 2008

Armazém Nove

- Alô?!

- Companhia de Água e Esgoto do Estado, bom dia.
- Alguém aí para ouvir uma reclamação séria?
- Sua ligação será transferida para o setor responsável, senhor. Aguarde na linha, por gentileza.
- Ah, merda... - disse, afastando o telefone do rosto
- Um instante...
- ♪ ♪ ...
- Companhia de Água e Esgoto do Estado, pois não, em que posso ajudá-lo?
- Então, podemos começar?
- Me informe seu nome, senhor, e a localidade de onde está falando, juntamente deste número na sua conta de água que aparece logo abaixo do seu logradouro.
- Logradouro? Olha, meu nome é Coelho, pode por assim aí, Tomás Coelho.
- ...
- ....
- Senhor, preciso dos seus dados e o número, por favor...
- Ah, rapaz, vamos direto ao assunto, porque bafo de boca não cozinha ovo... tenho dúvidas quanto ao endereço também.
- Como assim, senhor? O senhor pode ser mais claro? - Interpelou o afobado atendente do setor de qualidade de serviços prestados.
- É o seguinte, rapaz: eu moro na cidade do Rio de Janeiro mas não possuao residência fixa. Pra começo de conversa nem residência possuo. Aliás, possuo muito pouca coisa além do meu próprio corpo. Eu moro atualmente no Armazém Nove, aqui no Cais do Porto, e tem um grande vazamento de água bem em frente à minha cama. Você sabe, a rua aqui é bastante movimentada, os caras dos ônibus passam aqui à toda nas primeiras horas da manhã... A água se acumula durante a madrugada e quando o primeiro motorista espírito de porco passa aqui, ele faz questão de passar sobre a lagoa formada aqui. Estou falando de ser acordado antes das seis da manhã, meu bom rapaz! Com um banho, na própria cama! Você não gostaria de ser acordado dessa maneira, gostaria? Me diga...
- Senhor, isso é...
- Fora que a água é imunda. Não é por mal, você sabe. Eu seria capaz de tomar banho nela, sabe? Mas antes eu teria de ser capaz de tomar banho, somente. Você não dá valor à tomar banho, até que você não tem onde tomá-lo.
- Mas... - Balbuciou o atordoado atendente do setor de qualidade de serviços prestados.
- E entenda que com esse vazamento, cria-se uma grande dificuldade para obter roupa de cama. Sim, na sua casa é aquele lençol bonito cujos raminhos e outras besteiras desenhadas você nunca reparou, mas aqui eu costumo usar jornal para forrar e cobrir a cama, de papelão, as embalagens de geladeiras dão excelentes camas. Mas é difícil consegui-las. Não sou o único que mora debaixo das marquises desta cidade. Até porque não há marquises para todos. Muito menos bons nacos de papelão. Jornal há bastante, mas não é o suficiente. E tendo que conseguir novas camas todos os dias... Compreende a minha dificuldade?
- Eu simplesmente não acredit...
- Nem eu , rapaz! Nem eu! Espero que você tenha registrado todos os detalhes, mas é inevitável que eu tenha que abandonar ste que considero o melhor dos Armazéns do Cais do Porto. Muita sombra, pouco sol, boa vizinhança, todo mundo de paz. Mas... Olha, eu agradeço sua atenção, ainda bem que podemos fazer chamadas para a Companhia de Água através dos telefones públicos, porque senão....
- Qual o seu nome mesmo? Tomás Coelho? E o que mais?
- Tomás Coelho da Silva Jardim, tome nota, é um belo nome, sou bem nascido e bem vivido, apesar de mal residido e mal alimentado...Inclusive, por falar nisso, não poderia você arrecadar com seus colegas aí da companhia alguns trocados, ou então você mesmo me pagaria uma vez por semana uma bela refeição, com carne de verdade e...
- O senhor é casado, senhor Tomás?
- Agora? Não, agora sou casado apenas com o acaso e com tudo o mais que desemboca em caminhos sem rumo. E, mesmo assim, note bem, rapaz, que falo bonito. Mas sou viúvo atualmente. Você está me cadastrando aí no seu computadorzinho? Vamos lá, já lhe falei, o logradouro é que...
- Sua falecida esposa chamava-se Penha?
- Vocês me localizaram! Estão pensando o quê? Sou um vagabundo inofensivo, a pessoa à quem eu mais faço mal sou eu mesmo, o que vocês estão querendo? Me levar pra algum abrigo? Me encher de creolina e catar piolhos e pentear meu cabelo todo pro lado e me barbear e me enfiarem aqueles panos de vestir doentes? Olha, vocês não vão me achar mesmo, eu vou desl...
- Um instante, senhor. Não há mais dúvida alguma.
- Ah, então é isso mesmo? Vocês do Governo não se preocupam com outra coisa que não seja a aparência? Não vêem que isto não dá em nada? Que logo voltamos e em seguida vocês nos levam... É deprimente, nem que fosse morar nesses abrigos eu toparia, sabe?

- Senhor Tomás Coelho...

- Sim, não me leve à mal mas é isso mesmo, vocês tentam enfiar a sujeira pra debaixo do tapete, mas a tapeçaria está esgarçada e velha, enquanto que a sujeira vai engolir o tapete, vocês vão ver! Seu bando de miseráveis! Ladrões!!! Fascistas!!! Eu quer...

- O senhor é meu pai, senhor Coelho.

- Ah, sou? E será que você não quer passar um fim-de-semana no bangalô do papai, filhote? - escarneceu o incrédulo morador de rua - resolveu tirar um sarro da minha cara pra eu desligar? Isso mostra o quanto esse governo é hípócrita!!! Não passam de uma corja de...

- Ricardo Coelho, nascido em Água Santa, filho de Maria da Penha do Rosário Jardim e Tomás Coelho da Silva Jardim. Nomes familiares, senhor?

- Jesus Santíssimo!!!! Isso não pode ser verdade!!!! É você, Ricardinho??

- Meu pai... Vou até aí vê-lo, buscá-lo, tirá-lo daí... Há tanta coisa para conversarmos, para acertarmos... Por que você não ligou mais? Não escreveu? Por que nos abandonou?

- Ah, Ricardinho... Eu nunca soube ser um bom pai... Me desculpe, vamos deixar tudo assim como antes de hoje, dessa maldita ligação, desse maldito vazamento... Não podemos fazer isso. Fui um pai medíocre, não quero que me veja...Ah, maldita ligação, maldito acaso!!!!

Ainda com a tiara do fone apoiada na cabeça, alcançou o braço de seu supervisor e quase lhe implorou para que fosse liberado naquele instante. Tropeçando nas palavras, explicou sobre a situação absurda e trágica de que teve conhecimento em tão poucos minutos. Seu superior não hesitou em liberá-lo, convencido que estava, menos pela história e mais pelo descontrole e ansiedade do rapaz, que voltou à linha, esquecida momentaneamente durante estes minutos com o senhor supervisor de atendimento. Vazio. Silêncio absoluto. Só o chiado da própria respiração. Ele tentou, em vão, dialogar com o nada que preenchia a sala inteira, nesse momento. Verificou o aparelho, incrédulo, suspenso no ar. "Ligação encerrada", mostrava o visor. Se desvencilhou do fone e voou pelas escadas do 11° andar. Às 14 horas do horário de verão no Rio de Janeiro. Lutava para desviar da multidão disforme nas calçadas, como que tentando impedi-lo. Armazém Nove. Sol carrasco, bandido. Papelões, jornais e sacolas de plástico com estampas de supermercados. Encharcados. Um pequeno lago ali, bem em frente. Vazamento sem solução aparente. O telefone público, do outro lado da rua, fora do gancho e pendendo no ar, preso ao fio, ainda balançava. Um ônibus furioso passa sobre a poça enorme. A água escorre pelos trapos. A marquise do Armazém Nove está agora disponível para novos moradores. Que não se incomodem com o pequeno problema do cano furado na rua. E, principalmente: que não tenham filhos.