sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Extintores Colômbia - Parte Segunda

Tento chamar os extintores Colômbia, mas eles não vêm. Se eles calculassem a grandeza da importância que eles exercem em cada um destes dias, duvido que não tratassem de logo aqui estarem. Mas se não há como tê-los aqui, paciência, que seja assim mesmo, sem eles.

Meu código de barras já está bastante desbotado. Parecendo aquelas tatuagens baratas feitas com carga de caneta bic e agulha de costura. Vou pegar um formulário de solicitação de reforço de demarcação pessoal na saída. Em dois dias terei um código de barras novinho. Giulio Côrtes veio visitar-me ás dez. Falou de modo eloquente sobre Jeanne e Marco, o gladiador. Claro que eu nada disse durante todo o tempo, muito mais ganho em somente escutá-lo. Decorridos dez minutos de sua chegada, ele foi bruscamente, cuidadoso para que o relógio digital não lhe mostrasse três palitos e um zero. Eu entendi perfeitamente.

Estou à sessenta e um minutos do banho de chuva. Isso, é isso mesmo. O sol está advertido e condicionalmente proibido de vir aqui nestas bandas por enquanto (a não ser que venha desbotado como meu código de barras), por conta de um desentendimento com A Matriz. Como isso é possível? Os russos têm aquelas cápsulas de chuva, certo?! Nós também. Eles também, eu quero dizer. O banho de chuva dura uma hora e nos é permitido fazer a refeição central neste espaço de tempo, é apenas chuva, não há mal algum em comer e molhar-se. Eu tento ler jornais enquanto como, mas é uma prática que se revela tão pouco prática e cansativa, visto que a água desce aos cântaros, desigual, no pátio, e o jornal vira mingau, só pela rima.

Às duas, vamos todos para a câmara dos ais. Dispensa maiores explicações. Para que nossas juntas não apodreçam, colocam cada um de nós em um catre especial de aço, com suportes laterais, feito abas. Cada membro do corpo é bem amarrado por presilhas de couro ligadas à quatro cabos de aço bem tensionados cada um deles passando por uma grande roldana, e à cada movimento de manivela esticam-se nossos braços e pernas até o estalo característico.

Pelo menos dura apenas dez minutos.

Às três, hora do caldo sofrido. É o mais terrível do dia todo. Colocam as roupas íntimas de cada interno (creiam, cada um de nós dispõe de uma cueca e um par de meias por ano, dadas pela direção) numa grande caldeira com água fervendo. Depois de meia hora, estarão como novas. E assim obtemos nosso Caldo Sofrido. Para cada recipiente de vinte litros, um copo pequeno de essência de baunilha e vitaminas, além de muito açúcar. Sirva-se.

Dez minutos após a ingestão do caldo, vamos para as pequenas reformas. Minha seção cuida das roupas, geralmente, dos funcionários do Estado, que necessitam de acertos, arremates , remendos etc. Não aguento mais tantas linhas. E usamos uma linha mais resistente, a poli-linha. Inserimos os pontos um a um. Cadastramos cada botão. "Serviço de qualidade prestado em altas velocidade". Nosso lema na seção. E ai daquele que não produzir no mínimo quinhentos e dois pontos por dia.

Difícil mesmo é quando você chega aqui, logo após a triagem, e lhe pedem para escolher qual orelha sua será cortada. Um mecanismo muito simples de submissão. Escolhi a direita, aleatoriamente, há questões em que pensar muito à nada leva. Essa é a doutrina um do livro do embrutecimento, dado gratuitamete na primeira semana de casa. Se quiser o meu, está aqui na gaveta.

À cinco, soa a sirene. Só escuto de um lado, claro.

Eu pego minhas coisas, o casaco dobrado sobre o braço, mijo, assino o ponto e vou pra casa.

Nada como mais um dia de trabalho.

4 comentários:

Ana disse...

Cuidado com as janelas que distam imenso do chão; nesse ritmo, um dia elas lhe parecerão horrivelmente sedutoras!

*medo* do seu ofício, te prefiro enquanto escritor.

rs
beijos

Anônimo disse...

Ficar entre um escritor e um blogueiro pode ser muito gostoso...dependendo, é claro, do talento dos dois.
Vou ter de frequentar para descobrir.
Bjo grande,
Nádja

rodriguezz disse...

opa, acabei de ler seu comentário na Jamanta Bege. Se vc quiser eu posso mandar o novo romance do Dan Fante pra vc por e-mail.

valeu, até mais

Naomi Conte disse...

que trabalho doido!
que texto bom!