terça-feira, 10 de junho de 2008

"Adiós, Jill Dumas"

Era realmente o máximo tocar bateria em uma gravação de Bob Dylan. Comandei as baquetas em "T.V. Talkin' Song", uma dylanesca dos anos 90 em tom menor. São quatro exatos minutos, em ponto, na mosca. Eu fui marcial, sucinto, preciso como uma bomba-relógio, sem firulas nas viradas, sem ser espalhafatoso nas pratadas. Um excelente trabalho, sem dúvida. E sem modéstia, claro. Já em "Don't think twice, it's all right" eu me preparava pra fazer a introdução, aquela violinha esperta, mas os dedos travaram, o que fez com que Bob soltasse um grunhido de desaprovação e me olhasse feio, como se dissesse: "Man, you must be putting me on!". Aí então fui tragado de volta da sessão de gravação bruscamente, por uma voz seca e áspera como se processada através de um monte de lixas enterradas em um monte de areia, dizendo: "acorda!". Era o Jill Dumas, chefe de produção da fábrica de biscoitos de soja onde eu trabalhava, a Sewig. Eu não me reportava direto à ele, havia primeiro um supervisor de produção, mas era inexpressivo. E, caceta, estávamos eu, Dylan, Salvador Paradiso e Dino Morientes prestes a entrar num autêntico Buick 61, em direção à São Francisco, com Dino dirigindo, é claro. Na verdade, Dino e Salvador estavam dando vazão à uma enlouquecida idéia que me fascinara: cruzar os EUA, de leste a oeste, do jeito que fosse. Eu teria ido junto, logicamente. Anos mais tarde, Salvador escreveria um livro que se tornaria uma espécie de muralha da China literária, algo sem precedentes nem sucessores, baseado na vida pela estrada. Ainda grogue pelo sono, olhei para a esteira à minha frente, embaçada, onde eu deveria inspecionar atenciosamente cada biscoito que passasse, separando os defeituosos, partidos e despedaçados. Claro que a partir daquele segundo eu estava sendo lançado no centro do picadeiro, com todo o pessoal da produção servindo de espectadores da espinafrada que viria pra cima de mim. O próprio Jill Dumas, parado à minha frente, franziu os cantos do lábio inferior pra baixo, arqueou as sombrancelhas e murmurou um "Muito bem...", que pareceu ter saído até com estas reticências, das profundezas negrescas de sua barriga macilenta. Andou até a seção de empacotamento como se fosse o próprio Horatio McCallister*, escritinho, em pessoa. Escolheu um pacote fechado qualquer, rasgou o lacre da tampa superior com calma, retirou a embalagem plástica que guardava os biscoitos e enfileirou-os, um a um, em cima da esteira, imóvel, me olhando como um gárgula modorrento. "O sr. pode me explicar como isso aconteceu?". Merda. Não prestava um biscoito sequer. Todos danificados. Ainda por cima, eles eram feitos na forma de bonequinhos, o que me deixava numa situação ainda mais patética do que apenas ter sido acordado pelo manda-chuva da fábrica durante um cochilo dylanesco. Era ainda mais constrangedor ser execrado por aquele exército de bonequinhos mutilados, descabeçados e pernetas, que me olhavam e escarneciam enquanto estavam ali estirados na esteira. Voavam farelos a cada gargalhada. Cochichavam uns com os outros, debochavam, partiam ao meio de tanto rir. Alheio aos pequenos canalhas e suas risadinhas doentias, o olhar inquisidor do Jill tentava me intimidar. Eu estava nas cordas, e se caísse ouviria a contagem até dez, ali, imóvel no chão; Não havia para onde correr, nem mais nada a fazer, era a hora derradeira de pedir penico e me entregar, simplesmente. Estávamos a uns quinze minutos do soar do gongo do almoço. A pressão era perceptível, o ar estava denso, aquele silêncio pesava sobre todo mundo. Encarei o Jill como nunca havia feito antes. Avancei firme para a esteira, próximo a ele, e tomei a embalagem de sua mão. Sem desviar os olhos, comi os biscoitos que estavam enfileirados na esteira, um por um. Hahahaha. Aqueles malditos debochados se lascaram todos. Mastiguei-os impunemente. Resoluto, avancei nos próximos três pacotes e fiz o mesmo, devorando todos os biscoitos defeituosos. O polido e durão Sr. Dumas espumava, olhos arregalados de ódio. Sacudiu as mãos no ar, vociferando, praguejando, xingando. Ainda com as bochechas lotadas de biscoito, tirei o avental e a touca. Saí da seção. De súbito, girei nos calcanhares e voltei, pra surpresa de todos, ainda atônitos. Procurei pelo primeiro balde de desperdício (onde depositávamos os biscoitos defeituosos) e cuspi nele toda aquela massaroca que estava na minha boca. "Biscoitos sabor merda, é isso que são!", bradei de peito cheio e tornei a sair. Tirei a camisa do uniforme e embolei-a, foi um arremesso certeiro no cesto de lixo do corredor. Abri meu armário e vesti uma camisa completamente amarrotada, que fedia à suor seco. Tranquei o armário, quebrei a chave na tranca e desci. Bati o ponto de saída faltando cinco minutos pro almoço. Me despedi do porteiro, gente boa, e cruzei a porta da saída, mais do que nunca, de saída. Experimentei o sol do meio-dia, agora em liberdade, e ele estava amarelão e invencível, como há muito não o havia reparado antes.
Segui a rua Bernardette de Figueroa direto até o cruzamento com a Conde de Abrolhos, e logo já embicava para entrar na Highway 61, som ligado, aquela dose rubra de céu pelo retrovisor, o Dylan atacando com "Everything is Broken" pelos falantes, o caminho para o Oeste cada vez mais curto, no banco de trás a minha Olivetti Lettera com suas teclas possantes e loucas para serem tamboriladas, a minha doce Carmella sonhando comigo e me esperando ansiosamente num hotel em Angel’s Flight e o Buick dando tudo de si pra dar conta de deslizar macio pelas freeways até a minha amada.
A Califórnia se aproximava, e nada nesse mundo poderia detê-la.
Aí você me pergunta, à esta altura: “Oh, e o que houve com o Jill Dumas?”
É aí que eu lhes digo, francamente, meus amigos;
O Jill Dumas que se foda.


*Pesquise no Google imagens

5 comentários:

Cássia disse...

Muito bom Marco!
Vou lhe por nos favoritos

A Juli disse...

quem é vc, pessoa que visitou o alot?
que blog bom o seu. :)

Alice disse...

gsuis mamado,que super duper post!
e ainda por cima sobre coisas que nao entendo,ou seja,boiei legal!
sajbsaubsa
mas valeu por retribuir a visita.

juliana coelho disse...

rapaz, você é bom. :)
seus textos são bastante detalhados, nao consigo fazer isso, nunca consegui. bacana.

Mary West disse...

Quantos detalhes, foi como estar ao seu lado ouvindo cada explanação. Comofas? :D