quinta-feira, 31 de julho de 2008

Quando estiver duro, deixe por conta do Bob Dylan

- Opa. Vocês aceitam cartão de débito?
- Ô meu filho, a passagem custa só dois reais. E não tem como pagar com cartão.
- Ah, sim, um minuto, eu volto já.

Jack Willend acabara de ser demitido na semana anterior. E agora ele estava indo ao escritório de contabilidade da firma, em Rocktown Ville, cidade duas horas distante da sua, Palmheart City, para receber o cheque de sua rescisão contratual. Justamente por achar que sairia do escritório com os bolsos cheios de notas, ele gastou, rápido demais e sem dores na consciência, todo a parca quantia que possuía na carteira.

- Me veja aí este jornal de esportes, o "The Town and The City" e quatro torrones com castanha-de-caju.
- $ 9.75.
- Aqui está - ele disse, estendendo a nota vermelha de dez.

Com a passagem de ida já comprada e alojada em um dos bolsos da calça jeans, guardou os dois jornais, mordeu um torrone e jogou na mochila os outros três restantes. Procurou pelas plataformas o ônibus para Rocktown, apresentou o bilhete, ouviu "boa viagem" do condutor enquanto mastigava e acomodou-se na confortável poltrona, que ocupou sozinho por todo o trajeto. Leu as principais notícias de ambos periódicos, ouviu música e deu cabo dos torrones com facilidade. Feita a refeição, olhou o relógio, eram 12:37, e contou o dinheiro que sobrara na carteira: $ 1.30.
Mesmo sabendo que tomaria outra condução em Rocktown, da rodoviária até o centro, não se preocupou, pois contava com dezoito pratas no banco, e poderia sacar tranquilamente a grana em um caixa eletrônico daqueles vermelhinhos, vinte e quatro horas.
Já no saguão da rodoviária, tendo desembainhado o cartão para finalizar a operação, recebeu do caixa a informação: "APENAS DISPONÍVEIS NOTAS DE VINTE PRATAS, SEU BABACA". Bem, não exatamente assim que dizia, mas foi como ele se sentiu, um perfeito babaca, porque dezoito menos vinte dá menos dois, e esse resultado o caixa eletrônico não aceita. De posse da valiosa e única prata, mais exatos trinta centavos, e já tendo amaldiçoado pelo menos um dos torrones que comera, dirigiu-se ao guichê de ônibus locais e travou o diálogo que vimos no início da história.
Sem saída, voltou ao guichê.
- Hã, hum, eu preciso embarcar num ônibus pro Centro, mas só tenho $ 1.30.
- E quanto aos $ 0.70 que faltam?
- Dependem da sua camaradagem.
- Se vira.

Resignado e sem a menor idéia do que fazer, sentou-se num dos bancos da rodoviária e afundou a cabeça até que os dedos travassem nos cabelos, bagunçando-os. Com a fisionomia tensa, mas nem tanto - na verdade, aquilo era um deboche para consigo mesmo - , olhou em volta e sentiu que não podia espremer o ar com os olhos até que brotassem as moedas necessárias. De súbito, apalpou a mochila, rezando para encontrar a gaita - sim, ele sempre anda com uma gaita na mochila, acreditem-me - e achou-a, fitou-a, vitorioso. Pôs-se de pé e foi soprando, pentatonicamente, atraindo para si alguns olhares curiosos dos que passavam. Tirou a camisa, enrolando-a em volta da cabeça como um turbante, pensando em qual canção atacar, e então atacou resoluto, de olhos fechados, remexendo os braços e as pernas desengonçadamente, esta aqui:

Well, God said to Abraham: "kill me a son"
Abe said: "Man, you must be puttin' me on"
God said "NO!", Abe said "what?!"
God said: "you can do what you want, Abe,
but next time you see me coming you better run..."
Well, Abe said "where you want this killing done?"
God said "out on highway 61! Yeaaaaaaah"


Quando abriu os olhos, viu que os seguranças da rodoviária já estavam vindo ver o que acontecia ali; um sujeito insano cantando alto e dançando (?) sobre um dos bancos era algo que realmente merecia atenção. Jack preparava-se para desenrolar a história para os carinhas uniformizados, desde os torrones comprados lá em Palmheart City, enquanto voltava ao chão. Olhando pra baixo, viu algo reluzindo, junto a um dos pés do banco. Já havia alguns curiosos ao redor, os seguranças perguntavam o por que da galhofa, e Jack estranhava a ausência de doações dos transeuntes por sua performance. Nada. Nenhum dinheiro, nenhum centavo. Mas ALI, ali estava, desde muito tempo antes, sabe se lá quanto, uma prata de borda dourada, a suprema entre as moedas todas do país, bem ali embaixo dele, esperando ser vista e retirada, a excalibur das moedas, pelo mão de sua majestade Jack Willend, o rei dos pé-rapados. Tirou seu turbante ridículo, ouviu risadas e abaixou-se pára colher a moeda escondida. Se a tivesse visto minutos antes, sua pequena apresentação musical não teria acontecido, certamente. Explicações dadas, Jack agora avançava confiante para o guichê, para pagar, na totalidade, sua passagem de duas pratas. O trocador emudecera. Jack cruzou a roleta como se cruzasse o Rubicão. Entrou no ônibus e sentou ao lado de uma senhora. Abafou o riso. A senhora pensou "que debochado!". Olhou para as casas da cidade serrana que passavam na janela da senhora. Jack estava radiante. O ônibus ganhava as ruas cheias de curvas de Rocktown Ville. E o jovem Willend estava convencido de que devia setenta centavos à Bob Dylan.

6 comentários:

ju coniglio disse...

ô rapaz, você podia igual ter dito que era meu menor fã porque, sendo o único, é maior e menor. ;) obrigada.
suas coisas são bacanas, mas porque nunca são aqui?

maíra disse...

E eu entrei aqui só pra dar uma olhadinha.. e de repente já tinha lido a página toda =)

Renan de Moura disse...

Paraéns pelo blog!

Continue acessando e espalhe para seus amigos o Fanáticos pelo Cesso e meu outro blog, o Futebol Carioca 2008:

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Valeu!

Mary West disse...

Jack definitivamente é um cara que sabe viver. Rir de se mesmo é uma arte eskecida. ;)

Camila disse...

O Bob sempre quebra um galho, ainda não testei os galhos financeiros, mas os poéticos e musicais são muito bem quebrados! Adorei o texto, muito criativo!

Klotz disse...

Gostei, cara, gostei.
Gosto de crônicas criativas.